Cidadania: Grosselli, autor de “Vincere o Morire”, é a favor do limite geracional. “Depois de uma, duas gerações, você tem uma outra realidade, vive numa outra pátria”

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Mesmo tendo ajudado, com seus livros, a milhares de ítalo-brasileiros interessados no reconhecimento da cidadania italiana por direito de sangue, o sociólogo, pesquisador e escritor italiano Renzo Maria Grosselli é partidário do limite geracional na transmissão do direito de sangue. “Depois de uma, duas gerações, você tem uma outra realidade, vive numa outra pátria”, disse ele.

“Você acha que uma pessoa que nasceu aqui, que tem um pai que nasceu aqui, que tem um avô que nasceu aqui, que tem um bisavô que nasceu aqui, teria que votar para a escola onde estudam meus filhos, para o hospital onde eu cuido da minha saúde?” perguntou ele ao editor da Revista Insieme, na entrevista exclusiva que concedeu pouco antes de palestrar na “Casa dei Nonni”, sábado último, em Nova Trento-SC.

Para Grosselli, a República Italiana é “generosa” na concessão de cidadania, uma “daquelas coisas que são bem italianas”, embora reconheça que isso tem dado certo para algumas regiões da Itália, principalmente no Vêneto e na Lombardia. Entretanto, mesmo reperguntado sobre a questão do pertencimento independentemente do direito de voto, ele não usa meias palavras: “Acho que é uma história que, normalmente, teria que acabar, porque depois de uma, duas gerações, você tem uma outra realidade, vive numa outra pátria”.

O escritor foi questionado sobre o prazo concedido, prorrogado e expirado para o requerimento de reconhecimento da cidadania por parte de trentinos e outros descendentes de habitantes do antigo Império Austro-Húngaro. Segundo ele, em função das levas trazidas pela nova migração mundial, pode até ser que o prazo seja reaberto, “porque tem quem fale, lá, que é melhor brasileiro de origem italiana que, digamos, africano – para não ser racista. Então, quem sabe que não abra de novo”.

Nesse segundo vídeo da entrevista, Grosselli fala de cultura, política e outros temas atuais. Reconhece que os descendentes de trentinos no Brasil são os que, em todo o mundo, mantém mais vivas as tradições e costumes herdados de seus antepassado. Isso, apesar da proibição, por duas vezes imposta pelo governo brasileiro, de falar “línguas estrangeiras”. Isso porque “o Brasil – analisa ele – não é aquela terra que faz as coisas até o fim”. Abaixo transcrevemos a parte em que ele fala sobre a transmissão do direito de sangue. Confira

Cidadania italiana por direito de sangue: os trentinos tiveram um prazo que foi prorrogado, mas agora fechou. Acha isso justo?

“O que eu achei estranho foi que a República Italiana desse a possibilidade, não só aos brasileiros, mas a todos os nossos que estão no mundo, de obter uma cidadania depois de cinco gerações. Me pareceu uma daquelas coisas que são bem italianas. O Brasil é um país interessante; a Itália é outro país interessante. Os dois, de mãos dadas. Foi uma generosidade muito ufanista. Então, você acha que apesar de que eles, com a dupla cidadania, elegem só uma porçãozinha dos deputados da Assembléia italiana, acha que uma pessoa que nasceu aqui, que tem um pai que nasceu aqui, que tem um avô que nasceu aqui, que tem um bisavô que nasceu aqui teria que votar para a escola onde estudam meus filhos, para o hospital onde eu cuido da minha saúde? Eu acho que foi um exagero.

Agora, se pensamos na Itália e no Brasil, esta coisa deu certo porque os jovens que nas últimas três décadas foram para lá procurando – eles diziam as raízes, na realidade procuravam trabalho e euros para guardar e depois voltar e comprar uma casinha, ou uma casa melhor, botar uma firminha, uma produtora de alguma coisa, ou aprimorar a agricultura deles – deu certo para nós e deu certo para eles. Não tanto no Trentino, mas na Lombardia e no Vêneto principalmente, que é a região de Veneza, Pádova, Verona, Vicenza, Treviso etc., no Vêneto havia cidadezinhas, povoados, que eram – estamos falando dos anos 80 e 90, antes da crise econômica de 2001 e depois de 2008 – que eram habitadas por brasileiros de origem italiana de longe, os melhores que eles encontravam. Fieis, muito trabalhadores com uma grande capacidade de poupança. Eles poupavam e não geravam problemas. Agora são em menor número, alguns deles se mandaram, outros se nacionalizaram lá e ficaram lá.

Mas enfim, o problema da dupla cidadania agora é um problema que a Itália vai resolver, mas… talvez, quem sabe, abrindo de novo. Porque tem quem fale, lá, que é melhor brasileiro de origem italiana que, digamos, africano – para não ser racista. Então, quem sabe se não abre de novo? Acho que é uma história que, normalmente, teria que acabar, porque depois de uma, duas gerações, você tem uma outra realidade, vive numa outra pátria. Pode ir lá, e depois de um tempo ganhar uma dupla, ou a outra cidadania, digamos.

Mas, enfim, eu sei que agora é duro. Eu trabalhei muito em cima de dar a possibilidade aos trentinos – e aos vênetos e aos lombardos desses lugares onde eu pesquisei – de receber a dupla cidadania. Porque desde o começo, desde o primeiro livro, “Vencer ou Morrer” (que foi traduzido aqui), porque esses italianos que estavam aqui precisavam (deu para entender rapidamente, porque já tinha a lei) de uma ajuda para chegar lá e saber de onde eram (porque um dos documentos que precisa é da Prefeitura certa do nascimento do antepassado que migrou) e a maioria não sabia: eu sou tirolês, eu sou italiano, sou alemão… Eu colocava as listas no final dos meus livros e as listas custavam quase outro livro, porque você tinha que recolher listas aqui e lá, tinha que fazer cruzamento de dados, numa época em que o computador era uma máquina de escrever, não cruzava dados.

Então gastei uma parte da minha vida para fazer isso. Eu acho que milhares de trentinos, mas também de vênetos e lombardos, conseguiram a dupla cidadania em cima de meus livros. Dos livros que a Província Autônoma do Trento, editou. Houve um tempo, nos anos 90, em que eu fui contatado pelo consulado italiano de Curitiba, eles me dizendo que a partir de agora as suas listas (eles falavam só do livro “Vencer ou Morrer”, então das duas colônias, digamos: Brusque e Blumenau) serão provas do nascimento do cidadão lá na Itália. Acho que isso não durou muitos anos. Nunca mais me informei, mas isso me deu prazer e honra.

Recolocando a pergunta: mas a questão da busca pela cidadania não estaria mais vinculada a um sentimento de pertencimento que a ao direito de voto? Como vê isso?

Eu me pergunto: Se os imigrantes de agora lá na Itália, daqui a quatro gerações ou cinco, ainda gostassem de querer se sentir senegaleses ou nigerianos ou sírios ou libaneses, ou qualquer coisa… estranharia muito. Eu entendo uma pessoa que teve a mãe que dizia que era… um tempo o avô ou bisavô italiano… se sentir com uma grande simpatia e sentir na pele umas raizes. Mas é preciso a cidadania para isso? Só porque a Itália deu a possibilidade de ter uma cidadania que ninguém no mundo tem. Assim, generosa, digamos! Generosa no sentido de cinco gerações.

Na Argentina há um problema, eu acho como sociólogo. A Argentina concede a dupla cidadania. (Não sei agora, desculpe, eu não estou atualizado). Mas os meus dois tios, irmãos do meu pai, que migraram para Bahia Blanca nos anos 40 e comecinho dos anos 50 do século passado, um deles não ficou argentino até os 65 anos. Não votava na Argentina, não lhe interessava. Vivia na Argentina, era argentino, tinha o jeitão argentino, tinha os filhos e os netos que estudaram na Argentina… Isso aí criou um problema, porque a metade dos argentinos são italianos, digamos assim, mais ou menos.

Então eu imagino que o senhor tem origem italiana e tenha um grande amor pelas suas origens, porque a Itália é um país extraordinário, cheio de problemas, muitos, mas também cheio de virtudes e que às vezes dá, não quero dizer vergonha, mas dá um pouquinho de mal estar… mas que muito mais vezes dá orgulho. Então, eu entendo a pergunta, mas não é razoável depois de cinco gerações…

Coloca, então, essa questão mais no plano cultural que jurídico, não é?

Sim, no plano jurídico e administrativo, com certeza. Eu diria que se a Itália fosse inteligente sempre aceitaria e facilitaria a chegada de qualquer jeito, quero dizer como turista, culturalmente; daria privilégios para as pessoas que puderem demonstrar que um tempo sua origem foi lá. Mas mais do que isso… não precisa uma cidadania.