Conselheiro diz que Comites virou objeto de desejo de políticos, envolvendo partidos nacionais

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Foto Desiderio Peron / Arquivo Revista Insieme

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O conselheiro Maximiliano Dallarosa recebe, em 31 de outubro de 2008, das mãos do então cônsul Riccardo Battisti, a comenda da “Ordine della Stella della Solidarietà Italiana” no grau de “Cavaliere”.

“De repente, o Comites tornou-se objeto de desejo de políticos da ‘área brasileira’, com partidos nacionais envolvidos diretamente e pessoas que nada sabem a respeito das demandas dos nossos irmãos italianos aqui residentes.” A sentença é do conselheiro do Comites – Comitato degli Italiani all’Estero do Paraná e Santa Catarina, Maximiliano Dallarosa (88 anos) e está contida em carta que ele enviou à deputada ítalo-brasileira Renata Bueno e à vice-governadora do Paraná, Maria Aparecida (Cida) Borghetti, a propósito da eleição para a renovação do órgão de representação primária das comunidades italianas, em processo em todas as jurisdições consulares italianas do mundo. Cópias da mesma carta, que chegaram também à redação de Insieme, foram enviadas pelo missivista a todos os conselheiros.

Colega de Dallarosa no Comites, Cida Borghetti encabeça chapa dissidente da formação que pretendia ser unitária na chapa encabeçada pelo advogado Walter Antônio Petruzziello. Tem o apoio da deputada Renata Bueno sob o movimento denominado “Passione Italia”. Com uma ponta de ironia, Dallarosa, que não é candidato às próximas eleições, observa que seus quatro avós eram italianos e deles herdou, além da “passione italiana”, a “paixão brasileira”.

Segundo o decano dos conselheiros do Comites atual, eleitos no distante 2004 (ele está na função desde 1996), tanto a atual vice-governadora do Paraná quando a deputada Renata Bueno teriam muito mais a contribuir no pleno exercício de seus mandatos. Consultado sobre a autoria do documento, Dallarosa confirma seu conteúdo e reitera que, a seu juízo, ambas deveriam “cair fora” do processo eleitoral, pois, “livres, teriam muito mais força para realizar coisas em prol dos interesses da comunidade italiana e do próprio Comites”.
Ele coloca também em dúvida sobre se elas terão o tempo necessário para dedicar às causas da comunidade italiana no nível exigido pelos Comites e observa que, devido ao fato de ser deputada estadual e, depois, federal, sua colega Cida Borghetti “compareceu muito pouco” nas reuniões da entidade.

Os novos conselheiros dos Comites em todo o mundo serão eleitos através do voto por correspondência, a ser encaminhado aos consulados italianos até as 18 horas do dia 17 de abril próximo. Mas o material para votação será encaminhado pela autoridade italiana apenas àqueles cidadãos que, mesmo inscritos na lista oficial de eleitores, demonstrarem interesse de exercer seu direito através de requerimento que deve ser encaminhado aos consulados até o dia 18 de março. Modelo desse requerimento pode ser obtido, através da Internet, nos sites dos consulados. O documento precisa ser preenchido e assinado pelo eleitor e remetido com a fotocópia de um documento pessoal. 

A seguir, publicamos na íntegra a carta de Massimiliano Dallarosa, respeitando integralmente seu conteúdo original, mas retirando dela apenas a formatação original que contém grifos em caixa alta: “Caríssimas Cida Borghetti e Renata Bueno, meus quatro avós eram italianos, mas, especialmente, do meu pai herdei a ‘Passione Italiana’, porém, com o maior respeito ainda pela paixão brasileira.

Meu pai, já nas décadas de 1930 e 1940, recebia revistas da Itália e o Jornal Estado de São Paulo, residindo em Rodeio-SC, apesar de ter cursado apenas o minguado primário, em Dialeto Italiano, hoje oficialmente reconhecido corno Língua Talian.

Fiquei impressionadíssimo ao verificar, em vosso folheto publicitário, o expressivo apoio, interessado, no desenvolvimento da Língua italiana no Brasil. Será que todos tem conhecimento do ‘Piano d’Aazione’, firmado pelo ex-Presidente Lula, com o Silvio Berlusconi, em Washington, dia 12 de abril de 2010?

Com este grupo magnífico que vocês propõem e indicam, especialmente aos eleitores italianos, entendo que vocês poderiam ter muito mais sucesso, agindo em suas áreas de atuação. Entendo que o Consulado e o Comites poderiam ter evidentemente muito maior viabilidade de dispor de meios que lhe facultem a realização de seus objetivos, se toda esta energia e disponibilidade fosse canalizada para apoiar as iniciativas e resolver os problemas da comunidade italiana.

A Vossa coordenadoria reflete dinamismo de ação, influência pessoal, e, mais especificamente, exímia habilidade e capacidade política, mas pecam no requisito básico para este setor: a essência, a história, o fio condutor que nos trouxe até aqui.

Em reconhecimento ao brilhantismo das Vossas intenções, acrescido da estima e consideração que lhes dedico, é que tomo a liberdade de manifestar-me sobre a eleição do Comites, órgão que era praticamente desconhecido da maioria da comunidade italiana, relegado ao simples voluntariado de pessoas que mantém vivas as relações entre a população e os órgãos do Governo Italiano. Pois, de repente, o Comites se tornou objeto de desejo de políticos da “área brasileira”, com partidos nacionais envolvidos diretamente e pessoas que nada sabem a respeito das demandas dos nossos irmãos italianos aqui residentes.

Completei 88 anos de idade, participo, ativamente, do Comites desde 1996; trabalhei na Souza Cruz, na administração e Gerência de Recursos Humanos por 28 anos, como Presidente da Associação Italiana, desde 1993 e participei, corno fundador ou associado, de diversas entidades, enfim, possuo profunda experiência social junto à Comunidade Italiana no Paraná e Santa Catarina.

Nestes anos todos de atividade, constatei de que entidades que imiscuíram política, em suas atividades, infelizmente sucumbiram.
No assunto, em sintese, devemos considerar:

– O Consulado e o Comites são entidades italianas, com atividades sujeitas, expressamente, à regulamentações determinadas pelo Governo e Parlamento italiano;

– a funcão do Comites é a de assessorar, apresentar sugestões e pareceres ao cônsul, sem qualquer efeito vinculante;

– Manter relacionamento e Assessorar Associações ou Entidades da Comunidade Italiana aqui residente.

– Qualquer intromissão, direta com Entidades do Governo italiano, ou melhor, da política que vocês representam, poderá ferir a ética necessária;

– Os objetivos principais dos Comites e demais entidades nascidas no voluntariado, são o de difundir a Cultura Italiana.

A Inteligência e lucidez de vocês, Nobres Vice-Governadora Cida Borghetti e Deputada no Parlamento Italiano Renata Bueno, já absorveram o meu pensamento de que, em atuando em suas respectivas áreas políticas e com autoridades ou pessoas afins brasileiras ou italianas, poderão contribuir imensamente para o aprimoramento operacional e funcional do consulado e dos Comites, especialmente com o suporte do vosso grande e bem remunerado grupo de apoio. As duas discernirão quais os projetos que lhes são pertinentes e poderão apoiar, sem precisar tomar conta de nada, pois a inexperiência da maioria dos vossos candidatos da Lista Passione Italia com assuntos tão sutis corno os que são tratados nas reuniões do Comites e as vossas obrigações nos cargos para os quais já foram eleitas, determinará um esvaziamento deste órgão, pois lhes faltará o necessário tempo e entusiasmo para tratar disso.

Como minha proposta a título de colaboração com os projetos possíveis, indico que a inserção da Língua italiana, em contraturno é inviável, corno proposto pela lista ‘Passione Italia’. já na grade curricular é possível, com muitas dificuldades políticas locais e imenso esforço de pessoas abnegadas, as quais certamente não estão no vosso grupo, muito bem remunerado para o que fazem.

Tenho grande experiência neste particular e coloco-me a disposição para continuar trabalhando nesta área, juntamente com os membros do Comites, corno sempre temos feito até agora.

Resumindo minha dissertação, o prognóstico é de que: fora do Comites, em exercitando o movimento, com sucesso, este poderá maximizar o “vosso carisma político” e formalizar ilimitado número de “cabos eleitorais”, enquanto que, participando do Comites, estarão sujeitas a urna frustração vocacional e, com o insucesso, acontecer, exatamente, o contrário.
Devo esclarecer de que, considerando minha idade e saúde, deixarei o meu lugar para voluntariados mais jovens. Também não estou ligado a nenhum grupo.

Porém minha ‘passione’ pelo Comites induziu-me a ressaltar o bom senso para ter sucesso em nossas iniciativas.

Desejando-lhes pleno sucesso em Vossas atividades Políticas, coloco-me à disposição para eventuais esclarecimentos.

Mui atenciosamente.
Maximiliano Dallarosa, Consigliere Comites PR/SC (segue-se endereço)