Ítalo descendentes sem paz: considerações sobre a proposta do senador Micheloni

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Fabrício Sparvoli (Foto Cedida)

Para aqueles ítalo-brasileiros, reconhecidos ou ainda não, que, como eu, acompanham as notícias italianas, as discussões nos grupos do Facebook ou leem a prestigiosa Revista Insieme, caiu de fato como uma bomba, como noticiado pela mesma Revista, a notícia das propostas nefandas colocadas pelo senador Micheloni no Consiglio Generale degli Italiani all’Estero ontem, dia 23 de novembro. Tais propostas, como noticiado, visam a limitar o número de gerações que transmitem a cidadania, a aumentar a taxa de cidadania de 300 para 400 euros e a impor a exigência do conhecimento da língua italiana.

Ao ler tal notícia vergonhosa, veio-me à cabeça o livro ‘Homens sem paz: os conflitos e os bastidores da emigração italiana’, do ítalo-brasileiro Constantino Ianni. Publicado em 1963 pela extinta editora Difusão Europeia do Livro, trata-se de um estudo acerca dos bastidores da emigração italiana, que a aborda de diversos aspectos: histórico, econômico, social, político, religioso, fundiário. No centro do discurso do autor está o fato de que a República Italiana, desde a segunda metade do século XIX e até os anos 1960, quando o livro é escrito, fez da emigração de cidadãos uma política de Estado.

Isto quer dizer que houve incentivos vários – de bancos, em busca de lucros; companhias de navegação, em busca das passagens; do próprio Estado, em busca das remessas de dinheiro – que confluíram para forçar os nossos antenatos a emigrarem de sua terra em busca de melhores condições em outros lugares. Como diz o autor: “para o Estado italiano, a expatriação de um trabalhador é mais rendosa do que sua ocupação no interior, pois custa menos e as remessas [de dinheiro] são igualmente uma componente da renda nacional” (p. 26). Mais adiante, diz ainda que “os emigrantes não entram nessas preocupações senão como mercadoria a ser carregada nos navios” (p. 35). Os emigrantes, portanto, foram fabricados e exportados pela política de Estado italiana do período estudado.

Mas estamos em 2017 e precisamos pensar nas propostas do senador Micheloni.

A limitação de gerações é claramente a maior afronta aos ítalo descendentes, uma vez que limita o direito a uma reparação histórica. Filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranetos… o que seja. Todos os que buscam o reconhecimento de sua cidadania o fazem, ou deveriam fazê-lo, motivados por uma consciência de direito e de reparação, a qual não cessa em uma ou outra geração.

Para além disso, economicamente o Estado italiano continua a auferir – como já o fazia com as remessas dos nossos antenatos – ganhos dos italianos no exterior. Basta que pensemos na vultuosa soma de cerca de 16 milhões de euros provenientes da taxa de cidadania no Brasil em menos de 4 anos, a qual foi instituída para melhorar os serviços consulares, mas que ainda não foi redistribuída aos consulados, conforme divulgado recentemente. Taxa esta que gera apenas duas coisas: exclusão econômica para muitas pessoas e lucro para o Estado italiano. Melhorias? Não tem gerado.

Propõe-se a limitação do número de gerações, o aumento da taxa e a imposição do conhecimento da língua: busca-se, com isso, cercear o direito à reparação histórica dos descendentes daqueles homens fabricados e exportados como mercadoria pelo seu próprio país.

Vê-se do Estado italiano, seja nessa proposta, seja nos péssimos serviços consulares, a manutenção de uma política de Estado antiga contra os italianos no exterior e seus descendentes.

Ainda mais triste é ver nossos representantes eleitos como apoiadores desta política. Nós, ítalo descendentes, como nossos antenatos, continuamos sendo homens e mulheres sem paz – resta saber o que faremos em nosso favor com esta falta de paz.

* Fabrício Sparvoli é ítalo-descendente e historiador pela FFLCH/USP.