Morre aos 84 anos o ex-senador italiano e presidente da Italcam, Edoardo Pollastri

1312
O então senador Edoardo Pollastri, capa da Revista Insieme em maio de 2006.

Ex-senador no Parlamento Italiano pela América do Sul e presidente da Câmara Ítalo-Brasileira da Indústria e Comércio de São Paulo, Edoardo Pollastri faleceu nesta manhã, em São Paulo, aos 84 anos de idade. Seu corpo será sepultado domingo por volta das 15 horas, segundo as primeiras notícias colhidas pela redação de Insieme. O velório – segundo postagem realizada mais tarde em sua página no FB – “será realizado em 22 de janeiro de 2017, das 10h às 15h00, na Av. Dr. Arnaldo, 300 – Pacaembu, São Paulo/SP, seguindo o enterro no Cemitério da Consolação, R. da Consolação, 1660”.

A notícia foi inicialmente confirmada pelo presidente da Italocam do Paraná, Francesco Pallaro, que reportou informações transmitidas pela deputada Renata Bueno (USEI), ao lado de quem Pollastri concorreu sem êxito nas últimas eleições parlamentares de 2013. “Perdemos nosso caro amigo Edoardo Pollastri”, escrevera ela apoiando-se em informações colhidas com a família do ex-senador.

Pollastri ara natural de Alexandria (Piemonte, Itália), onde nasceu em 27 de agosto de 1932. Era economista e sua eleição para o Senado aconteceu em 2006, quando, pela primeira vez os italianos no exterior puderam votar por correspondência. Ele obteve 19.523 votos (67 a mais que a ítalo-argentina Mirella Giai, que antes da recontagem já vinha comemorando sua vitória), não obtendo, entretanto, êxito nas sucessivas recandidaturas. Foi presidente das Indústrias Alimentícias Visconti e de 1996 a 2002 presidiu a Escola Italiana Eugenio Montale, de São Paulo.

Durante o período de cerca de dois anos em que exerceu o mandato de Senador italiano, Pollastri conseguiu inscrever no orçamento a obrigatoriedade de recursos para a falida “task force”, destinada a dar fim às filas das cidadanias diante dos consulados italianos que operam no Brasil. Nas eleições de 2008 obteve 17.082 votos que não lhe garantiram a manutenção da cadeira. Por diversas vezes Pollastri presidiu também a Assocamerestero – a associação das Câmaras de Comércio italianas de todo o mundo. No referendo constitucional de dezembro último presidiu os comitês do “Sim” em todo o Brasil, por vontade do então premier Matteo Renzi.

Por volta do meio-dia de hoje, a assessoria da Italocam emitia a seguinte nota: “É com muito pesar que a Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria do Paraná (Italocam) recebe a notícia do falecimento da lenda da comunidade italiana, Edoardo Pollastri. Pollastri morreu aos 84 anos. Presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura de São Paulo (Italcam). Sua trajetória de vida foi sempre em prol da relação Itália-Brasil, foi senador italiano, presidente da Eurocameras e da Assocamerestero. Segundo informações, o velório está previsto para ocorrer amanhã (22) em São Paulo, a partir das 10 horas, no Cemitério Araça. E o seu sepultamento, será às 15 horas no Cemitério Consolação. Para o presidente da Italocam, Francesco Pallaro, a comunidade ítalo-brasileira perde uma importante liderança e deixa várias lições de vida. A equipe da Italocam se sensibiliza com a dor da família e dos amigos pela perda de Pollastri, e deseja força a todos”.

Em sua página no FaceBoock, também o deputado Fábio Porta comentou a “notizia che ci riempie di tristezza” (notícia que nos enche de tristeza”), definindo Pollastri como “um amigo, um irmão maior, uma referência segura para a grande comunidade dos ‘itálicos’ no mundo; o primeiro a entrar no Parlamento para representar a grande comunidade dos italianos de São Paulo, do Brasil, e da América do Sul”. Porta lembra sua última batalha, que foi pelo “Sim” no referendo, mesmo estando adoentado e diz que tinha encontro marcado com ele sexta-feira próxima, às 16 horas, para “discutir juntos novos desafios”.

Em 4 de agosto de 2016, com Renzi na sede do Círculo Italiano de SP, presidindo o Comitê do “Sim”. (Foto Desiderio Peron / Arquivo Insieme)

Na edição número 89 da Revista Insieme (maio de 2006), logo após sua posse no Senado da República Italiana, publicamos a seguinte entrevista com Pollastri, sob o título: “A nossa voz na Itália”: Uma reviravolta nos números de última hora coloca Edoardo Pollastri no Senado da República Italiana. Ele que prometeu ser “a tua voz na Itália”,  assegura que já começou a trabalhar. A primeira coisa que fez – segundo conta nesta entrevista exclusiva ao editor da revista Insieme – foi interceder junto ao novo governo pela reestruturação da rede consular. Pollastri avisa que trabalhará para dar sustentação ao governo mas se reserva o direito de discordar em matéria que envolva questões de consciência.

Ele já havia reconhecido a derrota, agradecido a colaboração recebida e se retirado para descansar na casa de praia, na orla paulista. Sem interpor nenhum tipo de recurso, estava resignado. Lamentava apenas o fato de o Brasil não ter eleito ninguém nas primeiras eleições em que os italianos no exterior puderam votar por correspondência em representantes regionais para a Câmara dos Deputados e para o Senado. Mas uma inesperada surpresa lhe chegou em forma de notícia que algum tempo depois foi confirmada oficialmente. Na apuração das urnas (uma em Brasília e três na Argentina) que faltavam estavam os votos que lhe deram a vitória, por diferença de 67 votos, sobre a argentina  Mirella Giai, da mesma chapa, que já festejara a vitória e fizera declarações à imprensa na condição de senadora eleita. Inconformada, Giai correu a Roma, enquanto Pollastri, o presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria de São Paulo, anunciava sua vitória e pagava a festa para amigos e colaboradores. A entrevista que publicamos foi realizada por telefone na manhã de 06 de abril:

Falamos ainda dessa sua vitória dramática. Está feliz, não?

POLLASTRI – Evidentemente. Mas tem que me acreditar que fiquei feliz por dois motivos: O primeiro deles é pessoal. Quando a pessoa entra num desafio, espera vencer. Evidentemente que fiquei feliz. Mesmo se já tivesse aceito a derrota. Tanto que chegou a ser publicado no jornal O Estado de S. Paulo que eu já tinha me congratulado com Mirella Giai, que parecia a senadora eleita. Não é verdade que eu interpus recurso, não me queixei com ninguém, fui para a casa que tenho no litoral paulista para descansar. É a verdade absoluta. Ali eu recebi a notícia da Agi (agência italiana) que dizia que parecia que eu tinha ganho. Não brindei até a confirmação oficial. Segundo: estou verdadeiramente feliz, e muito, porque o Brasil tem representante no Parlamento Italiano era bastante injusto.

Embora sua representação seja de toda a América do Sul!

POLLASTRI – Lógico. Mas pelo menos tem alguém da Argentina, alguém da Venezuela, e alguém do Brasil e, juntos, poderemos fazer para a América do Sul um bom trabalho.

O jogo fica mais equilibrado…

POLLASTRI – Me parece que temos um equilíbrio de justiça comparativa.

Já começou a trabalhar. Que fez até agora?

POLLASTRI – Até agora participei das longas discussões para a eleição da presidência do Senado. Como a mídia já mostrou, foi uma luta bastante grande porque a diferença entre a maioria e a oposição é de pouquíssimos votos.

Este será um governo de equilíbrio?

POLLASTRI – Será um governo difícil com a maioria que tem na Câmara, mas com uma maioria muito limitada no Senado.

Será um aliado incondicional do staff da Unione ou manterá certa independência. Como será?

POLLASTRI – Evidente que eu apoio o governo porque a Itália precisa absolutamente de ter um governo. Então tem o meu apoio, não vou manobrar. Única coisa que posso dizer é que em alguns assuntos que venham a ter contraste com a minha consciência, particularmente católica, ali eu não darei o meu voto. Eis a minha independência.

Então se reserva em sua liberdade?

POLLASTRI – Tanto que não sou inscrito em nenhum partido. Pertenço ao grupo da Unione, mas sem filiação a partido algum.

Durante a campanha, dizia que se sentia mais preparado para o cargo do que 80% dos senadores italianos. Repete isso agora?

POLLASTRI – Repito tranqüilamente. De uma boa parte, sem dúvida. Falo de preparação internacional, não dos aspectos políticos internos da Itália.

No sentido de conhecimento dessa grande Itália que está fora da Itália e que a Itália nem sempre conhece?

POLLASTRI – Daquilo que somos. Daqueles recursos de que a Itália dispõe em todo o mundo, que são os milhões de origem italiana como pessoa física, e de milhares e milhares de mini e pequenas empresas italianas que se formaram no exterior. É esse um mundo que não é suficientemente conhecido e que eu quero que seja bem conhecido, porque representa uma grande força para a Itália e, reciprocamente, para essas empresas têm aberto um caminho para a Itália, o que significa também a abertura de caminhos para a Europa.

Também dizia que a campanha lhe fez conhecer uma outra realidade. Que realidade é essa e a que ela poderá servir?

POLLASTRI – Vejo que tem deputado da América do Sul e também da Europa que conhece muito bem esta realidade e iremos juntos entrar também no aspecto do cheque de solidariedade, daqueles que são todos os direitos dos italianos. E particularmente já começamos a conversar, mesmo que o governo não esteja ainda formado, sobre uma de nossas exigências que é a reestruturação do sistema consular. Já conversamos. Já apresentamos. Em encontros informais que tivemos com Prodi já alertamos que um dos problemas que precisam ser resolvidos é a reestruturação consular. Pessoalmente disse que não se pode conceder um direito que depois encontra dificuldade para ser realizado.

Há uma nova esperança, então, para os que integram a enorme fila da cidadania?

POLLASTRI – Sem dúvida, porque faz parte de nossa bandeira, de uma bandeira que todos nós eleitos no exterior iremos conduzir.

O mote principal de sua campanha era ser a “tua voz na Itália”, a nossa voz. Que voz será e como fará para ser ouvida?

POLLASTRI – Eu só ainda sei que tipo de estrutura terei à disposição em toda a América do Sul para realizar este trabalho. Farei isso assim que for estruturado o governo e eu tenha conhecimento dos regulamentos. Por enquanto estamos nos ocupando da política interna, tem a eleição do presidente. Acredito que dentro de um mês vamos iniciar.

Além da reestruturação consular, para a América do Sul e especialmente para o Brasil, quais são os problemas  mais urgentes a serem colocados na pauta das conversas?

POLLASTRI – O problema mais urgente de todos é exatamente este da rede consular que precisa ser reestruturada e reorganizada. Não é um problema apenas do Brasil. Mas de toda a América e até da Europa.

Entende que há possibilidade de boa atuação do grupo de parlamentares eleitos pela circunscrição do exterior? Existem contatos neste sentido?

POLLASTRI – Já existem contatos. Espero que teremos uma boa atuação. Acredito mesmo. Vou lutar, como prometi. Já disse na minha campanha que sou uma pessoa séria que, quando promete, faz.

O momento é histórico. O que o nosso primeiro senador gostaria ainda de dizer à comunidade ítalo-brasileira?

POLLASTRI – Para a nossa comunidade eu gostaria de dizer que percebi que é muito importante ter um representante porque vamos ser lembrados todos os dias. Me parecia que muitas vezes os italianos no exterior eram um pouco esquecidos. Agora vamos ser lembrados continuamente. E isso é muito importante. Não é só os italianos no exterior terem a voz, mas terem também a presença física no Parlamento.

Continua presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria de SP?

POLLASTRI – Continuo. Tenho quatro vice-presidentes. Estamos negociando para ter a possibilidade de viajar freqüentemente para o Brasil. Também Pallaro, na Argentina, continua como presidente.