”Concurso” para ‘collaboratore'

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Um país se faz com tradições, povo e história. Mas também se faz com democracia, verdade e tolerância. A Itália de hoje parece ter se diferenciado pouco do modelo visto no século passado. A cultura arraigada do toma lá dá cá, do protecionismo e do nepotismo (do italiano ‘nipote’), ancora vive felice.

Enfim, isso para dizer que, mesmo alertada pelo meu professor de italiano (e italiano), que hoje vive em Londres, eu insisti em fazer a prova para ‘collaboratore amministrativo’, anunciada no site do ‘Consolato a Curitiba’.

O edital em si, se analisado minuciosamente, contém informações genéricas que nos deixam em dúvida – não há informações sobre remuneração, sobre os critérios a serem considerados na correção da primeira fase, sobre o que será pedido na prova de informática da segunda fase.

Se apenas o edital fosse o problema, este seria contornável. Toda a celeuma que me fez escrever esse texto começou com o fato do meu professor me alertar que, uma vez, havia feito um ”concurso” desses, obteve notas excelentes e, inexplicavelmente, não foi aprovado.

No dia da prova (16 de setembro último, na sede do Centro Cultural Dante Alighieri, em Curitiba), conheci duas moças, dentre os noventa candidatos, que me disseram ter visto seis pessoas que já trabalhavam no Consulado. Na hora, até achei estranho, porque na única vez que pisei no Consulado (e fui super mal atendida) não me lembro de ter visto sequer três funcionários.

Havia duas provas. Uma tradução do italiano para o português e vice-versa. Pois bem. O texto em italiano eu entendi do início ao fim – excetuadas umas três palavras que eu não conhecia e inferi do contexto. Já o texto em português, a ser traduzido para o italiano, admito que não fui tão bem quanto eu esperava.

Uma semana depois, saíram os resultados e, não surpreendida, vi que eu não havia sido convocada para a segunda fase. A moça que se sentava ao meu lado, e trabalhava numa “empresa de cidadania”, passou. Outros sete italianos passaram, cinco dos quais já trabalhavam em consulado italiano (alguns inclusive eram sócios de empresas brasileiras, o que não sei se é lícito).

Respirei, e lembrei de que, no dia da prova, o Cônsul andava pra lá e pra cá e conversava, e gargalhava, sempre com os mesmos “conhecidos” (suspeito, pois eram italianos). Lembrei de que a prova deveria ter começado às 9h e terminado às 11h, mas começou 9h30 e terminou às 12h30. Não havia nenhum identificador de metais antes de os candidatos irem ao banheiro, pois não havia a possibilidade de irmos ao banheiro. Pasmem – o Cônsul recomendou, no início da prova, que quem quisesse ir ao banheiro, deveria ir àquela hora, pois não haveria mais oportunidade. Eu fui no banheiro, e perdi tudo o que o Cônsul disse enquanto eu não estava na sala.

Na primeira prova, veio um texto em italiano, que parecia ser o mesmo para todos, não sei. Já na segunda prova, chamaram um candidato à frente da sala, para que tirasse um de três papeis de dentro de uma caixa – a candidata tirou o papel com a letra “A”. Isso significa que o texto “A” seria o texto da prova. Como saber se os textos “B” e “C” não seriam idênticos ao “A”? E por que não teve sorteio na primeira prova?

Enfim, tudo começou a me levar a crer que era caso de “carta marcada”. Enviei um e-mail, no mesmo dia, para o Consulado, para que me mandassem as minhas notas. Na prova que eu tinha certeza de que tinha ido bem, alcancei 30%. Na outra, que eu sabia ter ido mal, 59%. Pedi para ver minha prova. Sequer responderam. Se fosse um concurso com lisura, publicariam uma resposta-padrão exigida, e talvez até a digitalização das provas dos primeiros aprovados.

Estou decepcionada, mas não surpresa. Só fico no aguardo do resultado final, e convido a todos pesquisarem os nomes dos aprovados e tirarem suas conclusões.