“Gostaria que todos os 30 milhões de ‘oriundi’ no Brasil fossem cidadãos italianos”, diz Occhipinti

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O cônsul da Itália em Porto Alegre, Nicola Occhipinti. (Foto Desiderio Peron / Arquivo Insieme)

“Gostaria que todos os 30 milhões de ‘oriundi’ no Brasil fossem cidadãos italianos! Mas ficaria contente já com quatro ou cinco milhões”. Assim o cônsul da Itália em Porto Alegre, Nicola Occhipinti, respondeu à pergunta sobre que presente ele gostaria de estar comemorando hoje, no Dia Nacional do Imigrante Italiano, em lugar de gongóricos parabéns.

A singela resposta de Occhipinti interpreta o sentimento de milhares de descendentes de imigrantes que, de formas diversas, já vinham se manifestando nas redes sociais, em grupos de debates e ante a iniciativa de algumas instituições e entidades de realizar eventos para marcar a data. Ao contrário de anos anteriores, quando a data praticamente passava em branco, a data está sendo lembrada com inaudito vigor. Em São Paulo, por exemplo, as comemorações foram inclusive antecipadas, com o projeto “Viva!”, realizado pela Secretaria de Cultura do Estado no Museu da Imigração, com o apoio do Consulado Geral da Itália.  A festa, com gastronomia, música, dança e diversas atividades voltadas à cultura italiana, aconteceu domingo último (19/02).

Em muitas das centenas de associações ítalo-brasileiras que funcionam no País, desenvolvem-se atos culturais, religiosos e sociais para marcar o dia, instituído através de lei federal sancionada em 2 de junho de 2008, pelo então presidente em exercício, José de Alencar. A lei nasceu de iniciativa do senador Gerson Camata, do Espírito Santo, marcando o dia da chegada naquele Estado, em 21 de fevereiro 1874, de uma expedição de italianos a bordo do vapor “Sofia”. Na chamada Expedição de Pietro Tabachi, um total de 380 famílias desembarcaram na cidade de Vitória para substituir a mão de obra escrava negra nas lavouras da região. Embora ainda não oficialmente, era o início da grande migração de italianos em direção ao Brasil.

Antes disso, entretanto, uma leva de imigrantes italianos – que historicamente constituiu a primeira colônia italiana no Brasil –  havia chegado ao estado de Santa Catarina, em 1836. Maioria oriunda da Sardenha, os 132 colonos imigrantes fundaram a colônia Nova Itália, na área onde hoje se situa o município de  São João Batista, limítrofe de Nova Trento. Até hoje o nome do lugar onde ele foram assentados leva o nome de Colônia.

Segundo alguns relatos, boa parte dos imigrantes que, infelizmente, não contavam com nenhum tipo de apoio, foi dizimada pelos nativos inconformados com a “invasão” – os bugres. O relato da história sobre a epopeia da imigração italiana no Brasil aponta para uma verdade inquestionável: essa falta de organização e de apoio permeia todo o processo, que passou inclusive por fases de proibições e perseguições; embora o renascimento do “orgulho italiano” a partir da década de oitenta, ela chega em parte aos dias atuais, refletida inquestionavelmente nas filas da cidadania.

Desde o final de semana, alguns internautas vêm postando manifestações reivindicando “de presente” o reconhecimento da sua cidadania italiana – assunto recorrente há pelo menos duas décadas no seio da maior comunidade itálica no mundo, calculada em torno de 30 milhões de pessoas. Embora, pelas leis italianas, quem descende de italiano, italiano é, o processo de reconhecimento desse direito há anos vem sendo emperrado às portas dos consulados italianos que operam no Brasil. Há filas que vão de dez a quinze ou mais anos de espera, e nem a introdução da cobrança de 300 euros por processo há quase três anos produziu algum tipo de melhora no atendimento. Muitos, nos últimos tempos, aventuram-se em viagens para a Itália para furar esse bloqueio, gastando pequenas fortunas. Uma complicada rede em que se misturam informações privilegiadas, tráfego de influência e oportunismo chegou a se formar tanto no Brasil quando na Itália, “vendendo facilidades” sempre que aumentam as dificuldades.

A manifestação de Occhipinti encontra eco também em outros representantes ou ex-representantes formais da comunidade. O ex-presidente do “Comitato degli Italiani all’Estero” – Comites do Recife, Salvador Scalia, disse preferir de presente, em lugar dos “gongóricos parabéns” “uma rede consular moderna, eficiente, acolhedora… e sem filas!”. Opinião que é secundada por Luis Molossi, membro do Comites do Paraná e coordenador do Maie – Movimento Associativo Italiani all’Estero no Brasil: “No dia do Imigrante Italiano – escreve Molossi – gostaria de comemorar usando um trecho da manifestação de Salvador Scalia, que cita o próprio embaixador Bernardini, no seu recente giro pelo Brasil: Com uma rede consular moderna, eficiente e acolhedora, com o uso integral da famigerada taxa de Eu$ 300,00, que está perto do aniversário de três anos, no melhoramento efetivo dos serviços consulares”.

“O consulado – prossegue Molossi – deve ser uma Casa Itália para os italianos, seus descendentes e para todos que amam a Itália. No caso do Brasil, rede consular eficiente significa o fim das filas. Por enquanto, somente “gongóricos parabéns” ao esforço destes bravos antepassados. Mais de 140 anos de esquecimento da parte de quem é pago para cuidar dos direitos deles. E vai continuar assim, se depender dos nossos articulados e bem estruturados representantes”.

Já o presidente do Comites PR/SC e do Intercomites Brasil, Walter Petruzziello, é incisivo: “de fato, eu não dou os parabéns, apenas reverencio a memória daqueles que aqui vieram (eu também sou um imigrante) para tentar construir uma nova vida e que ajudaram a construir o Brasil. Pela memória deles eu gostaria de estar comemorando o fato de que seus descendentes não tivessem que “mendigar” o direito à cidadania italiana e esperar anos e anos apenas para apresentar os documentos; que fossem tratados como seres humanos pelas representações diplomático-consulares; e que não tivessem que pagar milhares a intermediários para agendar um passaporte”.

“Eu – conclui Petruzziello – não tenho nada par comemorar no dia do Imigrante, apenas reverencio a memória deles, incluindo  meu pai, que tiveram a coragem de buscar um futuro melhor para seus filhos. Se eles soubessem como seus filhos seriam tratados por quem representa a pátria mãe, talvez eles tivessem preferido passar fome dentro da Itália”.

Para contrastar com essa realidade de “cada um se vire como puder”, a imigração italiana no Brasil produziu, entretanto, fenômenos que orgulham a todos: lideranças em todos os níveis, das ciências à política e religião, e, principalmente, no mundo empresarial, onde calcula-se que mais de 30% do PIB – Produto Interno Bruto têm DNA italiano.

No cenário político internacional do mundo italiano, a vontade do cônsul Occhipinti, fosse ela rapidamente transformada em realidade seguindo apenas os ditames da lei, isso mudaria completamente a posição do Brasil: a maior força eleitoral estaria aqui no Brasil, superando em muito a própria Europa, redesenhando completamente o mapa da representação parlamentar na Circunscrição Eleitoral do Exterior.