Lei sancionada por Temer levanta polêmica sobre história da imigração italiana no Brasil. “Erro histórico”, dizem catarinenses

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Vista da Igreja Matriz de São João Batista-SC (Fotograma/PMC)

A sanção, pelo presidente Temer, na última quinta-feira, de uma lei federal (13.617/2018) que confere ao município de Santa Teresa-ES, o título de “pioneiro da imigração italiana no Brasil” iniciou um debate sem precedentes entre as comunidades italianas dos Estados de Santa Catarina e Espírito Santo. Abstraindo interesses e questões políticas do momento, o debate pode levar ao aprofundamento de alguns fatos ligados à ainda pouco conhecida história da grande imigração italiana em terras brasileiras.

A lei, que surgiu de uma iniciativa parlamentar do deputado federal Sérgio Vidigal (PDT-ES), segundo o historiador brusquense Paulo Vendelino Kons, constitui “um erro histórico”, pois bem antes dos italianos chegarem no Espírito Santo eles tinham chegado em Santa Catarina. Ele se refere aos 132 imigrantes católicos trazidos pelo então Reino da Sardenha que, em 1836, fundaram a primeira colônia de italianos no Brasil, denominada “Colônia Nova Itália”, localizada no Vale do Rio “Tijucas Grande”, hoje município de São João Batista, a 74 quilômetros de Florianópolis.

A contestação do historiador brusquense à iniciativa parlamentar capixaba foi levantada pelo jornalista Raul Sartori (ex-colaborador da Revista Insieme), aduzindo que “esses imigrantes aportaram em março de 1836 na baía norte da Ilha de SC, no porto do Desterro (hoje Florianópolis), transportados pelo navio Correio”, enquanto que “o início da colonização italiana no Espírito Santo ocorreu 37 anos e 11 meses após, em 21 de fevereiro de 1874, quando o navio La Sofia chegou no porto de Vitória, com 388 camponeses trentinos e vênetos”. Com base nessa também equivocada data é que foi estabelecido o “Dia do Imigrante Italiano” no Brasil (21 de fevereiro) – motivo de orgulho no Espírito Santo, mas que também já vinha sendo contestado em SC.

Agora historiadores e lideranças da comunidade italiana de Santa Catarina querem que a “lei equivocada” seja revogada, restabelecendo-se a “verdade histórica” sobre o início da imigração italiana no Brasil. Uma reunião foi convocada para a próxima sexta-feira, nas dependências da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis, com a participação de diretores de associações, parlamentares e representantes da comunidade de São João Batista, enquanto outras pessoas procuram fazer o “meio de cancha” para o encontro de uma solução conjunta do problema.

O jornalista Dante Mendonça, membro da Academia Paranaense de Letras, diz em sua página no FaceBook que o título atribuído a Santa Teresa-ES “de direito e de fato, comprovado historicamente, pertence à Colônia Nova Itália, no município catarinense de São João Batista, em SC”. Ele informa que “a Província de Trento, na Itália, através de seus representantes no Brasil, manda informação dizendo que vai se manifestar sobre o erro histórico denunciado pelo historiador brusquense Paulo Vendelino Kons”.

Segundo Dante, “também prometeram se manifestar vários Círculos Trentinos de SC”. “Dezenas de leitores também se manifestaram – diz ele -, ressaltando a necessidade de o erro ser reparado na instância – o Congresso Nacional – onde foi cometido”. Para ele, “quem poderia ser o embaixador dessa empreitada seria o deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB) que é natural de Nova Trento, município vizinho de São João Batista” e irmão do próprio Dante.

Enquanto isso, quem já está em campo em conversações com lideranças italianas do Espírito Santo é o conselheiro da Câmara Ítalo Brasileira de Comércio de SC, Diego Mezzogiorno. Ele foi procurado por algumas lideranças da comunidade italiana em função de seus contatos com os capixabas na campanha pela instalação de consulados italianos nos dois Estados. “Vamos em busca de uma solução negociada”, afirma Mezzogiorno.

Na verdade, até pouco tempo a história sobre a chegada dos primeiros italianos em SC era muito pouco conhecida. Foi um italiano da região de Milão, chamado Roberto Benelli, quem lançou luzes sobre fatos que a própria comunidade local estava deixando no esquecimento, ao escrever um livro sobre o que descobrira na temporada em que passou em São João Batista como consultor da área de calçados.

O nome do livro é “San Giovanni Battista – da Florentia al Brasile attraverso una sottile striscia di cuoio” (São João Batista – de Florença ao Brasil através de uma fina tira de couro), cujo lançamento foi registrado pela revista Insieme em 2001 (número 32). O livro de Benelli pode ainda ser encontrado em livrarias virtuais de sebo. Insieme publicou um texto do autor (“Sardos, Piemonteses ou Genoveses?”), em que ele coloca dúvidas sérias sobre a procedência dos imigrantes que, genérica e erroneamente, eram tidos como todos sardos.

Alguns estudos que circulam na Internet referem à pouca sorte daquela primeira colônia de imigrantes italianos que, abandonados à própria sorte, teriam sofrido também grandes perdas (alguns falam em mais da metade) em confrontos beligerantes com os nativos (índios) da área.

No Diário Catarinense, uma nota dá bem o clima criado com a lei sancionada por Temer: “Historiadores e líderes das comunidades italianas de Santa Catarina estão indignados com o presidente Michel Temer, que sancionou a Lei 13.617/18, atribuindo ao município de Santa Teresa-ES o título de “Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil”. O pioneirismo pertence na realidade à Colônia Nova Itália, de São João Batista, no Vale do Rio Tijucas. Foi fundada em 1836 par 132 imigrantes católicos do Reino de Sardenha. A presença italiana no Espírito Santo ocorreu em 1874, portanto, 38 anos mais tarde”.