‘Palazzo Garibaldi’ é, outra vez, protagonista de debates e críticas

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Uma estrutura de ferro envole a fachada do histórico "Palazzo Garibaldi" (Foto Desiderio Peron / Revista Insieme)

Construído por mãos calejadas de imigrantes italianos no final do século XIX como sede de cultura e mútuo socorro, o ‘Palazzo Garibaldi’ está sendo, outra vez, protagonista de grande celeuma em Curitiba-PR: seu preparo para um casamento marcado para esta sexta-feira (14/07), cujo número de convidados, divulgados como algo em torno de 1.200 pessoas, extrapola sua capacidade natural de recepção. Para isso, todas as áreas restantes em torno do histórico edifício estão sendo dotadas de estrutura em ferro para, cobertas, iluminadas e decoradas, integrarem o cenário da festa.

A intervenção arquitetônica em operação passou a motivar críticas severas depois que o assunto foi parar nas redes sociais. Embora a atual diretoria da entidade garanta que não haverá ofensas à fachada, arcos e janelas ornamentadas em seus dois pavimentos, nem à platibanda com coruchéus, cornijas e sobrevengas, o elegante palácio, assim como a pedra extraída do Monte Grappa, na Itália, e ali colocada em recordação dos pracinhas brasileiros que integraram a Força Expedicionária Brasileira na II Guerra, ficarão – lembram os críticos – durante algum tempo escondidos sob o arranjo instalado.

As críticas maiores, entretanto, referem-se aos aspectos econômicos do evento que atende os interesses de uma família inteira de políticos: um ministro de Estado (Ricardo Barros, da Saúde), uma vice-governadora (Cida Borghetti) e uma deputada estadual (Maria Victoria Borghetti Barros), a noiva, que decidiu ter o “Palazzo Garibaldi” por cenário de suas retumbantes núpcias. “Palácio e garrafa térmica de R$ 2,3 mil: o que o casamento de Maria Victoria diz sobre nossa elite”, escreveu Rogerio Waldrigues Galindo em seu blog, na Gazeta do Povo.

Segundo noticiou a RPC – Rede Paranaense de Comunicação, “de acordo com o Artigo 15 da Lei Estadual 1.211/53, é proibida a construção de estruturas que impeçam ou reduzam a visibilidade de prédios tombados, como é o caso do Palácio Garibaldi, sem que haja uma autorização da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná”. As obras, entretanto, foram iniciadas sem a autorização, o que fez elevar ainda mais o tom das críticas. No FaceBook houve quem desse início à “mobilização para derrubar esse puxadinho”. Outra matéria na Gazeta do Povo , com a opinião de arquitetos e ex-membros do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, dizia que “Sem autorização, casamento de deputada altera fachada de prédio histórico de Curitiba”.

A diretoria da Associação Gouseppe Garibaldi, em nota divulgada no dia 7 de julho, reagiu esclarecendo, entre outras coisas, que “a estrutura que vem sendo montada na área de estacionamento da Associação Giuseppe Garibaldi é para acomodar melhor os convidados em evento de um associado, e que em nada e de forma alguma agride ou causa danos à arquitetura ou patrimônio do Palácio Garibaldi, prédio que comemorou no último dia 01 de julho 134 anos de história, totalmente ligada ao desenvolvimento cultural da sociedade e da cidade”.

A primeira “guerra” envolvendo o prédio, cuja construção foi iniciada em 1887 e concluída somente em 1904 (mas ainda sem a fachada néo-clássica de 1932, assinada por João de Mio), dizia respeito ao nome da então “Società di Beneficenza fra gli Italiani Dimoranti nel Paraná”. Seu projetor, Ernesto Guaita, que era também agente consular da Itália, quis chamá-la Giuseppe Garibaldi, sabidamente maçom, contrariando as vontades do líder religioso dos imigrantes, Padre Colbachini. Venceu Guaita, mas perdendo a representação consular, que, respondia então ao Rio de Janeiro e foi fechada, enquanto o religioso foi transferido, vendo soçobrar também seu sonho de instalar um grande projeto migratório no Paraná.

Depois, ao tempo da II Guerra Mundial, em 1942 e por longo período, o Palácio Garibaldi foi abruptamente tomado (há a narrativa que o piano foi atirado por uma janela) dos italianos pelo governo do Estado para ali instalar a Liga de Defesa Nacional, depois o Centro de Letras do Paraná, a Academia Paranaense de Letras e, finalmente, o Tribunal de Justiça do Paraná que dali foi retirado, já na década de 1960, por uma sentença judicial.

A “devolução” do edifício à comunidade italiana, entretanto, encontrou o quadro social completamente desmantelado daquela que fora a orgulhosa referência dos italianos no Paraná. Em situação lamentável de conservação – tanto que estava para ser comprado por terceiros interessados na exploração de sua posição imobiliária -, o edifício foi totalmente restaurado e reinaugurado em 1996, depois de ter sido tombado ao Patrimônio Estadual em 1988, desde então integrando a lista de Unidades de Preservação UIP’s da Prefeitura de Curitiba.

Do histórico do “Palazzo Garibaldi” constam eventos sociais importantes como aquele que sediou o I Congresso Estadual do movimento operário paranaense, em 1906, que deu origem à criação da Federação Operária do Paraná. Mais recentemente, serviu de cenário para o longa-metragem Oriundi, com artistas como Anthony Quinn. Com quadro social reduzido, a entidade – que é frequentemente usada pelo Consulado Geral da Itália em Curitiba para sediar seus eventos institucionais – mantém-se com recursos oriundos principalmente de promoções especiais e festas como este do casamento de Maria Victoria. Atualmente, a sede estava passando por reformas gerais, incluindo sua estrutura e parte elétrica.