Comites: Ao analisar situação atual dos ítalo-brasileiros, Molossi confessa ter pensado em renunciar. E dá suas razões

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CURITIBA – PR – Renunciar ao cargo? “Confesso que mais de uma vez me senti tentado de fazê-lo”, escreve o conselheiro do Comites PR/SC – Comitati degli Italiani all’Estero e advogado Luis Molossi, ao comentar sobre a última assembléia do Intercomites, dia 10.09,2012, no Rio de Janeiro. Segundo ele, essa “tentação” se dá em função de que “a nossa atuação realmente não tem sido relevante para ajudar na tentativa de encontrar soluções” aos problemas da grande comunidade ítalo-brasileira e, também, devido à “deslegitimação” dos mandatos, em função dos constantes adiamentos das eleições dos Comites.

Molossi, que é também contador de profissão, além de discorrer sobre problemas já conhecidos, acrescenta outro motivo: “a pouca verba anual que têm os Comites fica restrita ao poder decisório do Presidente e seus compromissos, sendo que das prestações de contas eu, como conselheiro, nunca tive acesso para saber se alguma coisa efetivamente é destinada ao bem dos interesses da comunidade”.

Especificamente sobre a reunião do RJ, o advogado questiona a participação de outras pessoas, “ligadas diretamente a um determinado partido político italiano”. Molossi aborda a questão das “filas da cidadania italiana” e outros temas atuais: “os ítalo-brasileiros, sendo a maior colônia de oriundi no mundo, têm o direito de exigir que todos que possam fazê-lo tenham a dupla cidadania e é dever do Governo Italiano cumprir a norma enquanto prevista na Constituição e, quando isso acontecer, teremos o maior colégio eleitoral italiano no exterior e, assim, podermos contribuir ainda mais com nossa força em favor da manutenção dos vínculos com a pátria-mãe”. Confira o artigo que publicamos abaixo, na íntegra:

Sobre cidadania italiana no Brasil, ou a total falta dela.

“Meu caro Desidério Peron, editor da Revista Insieme,
fiquei estes últimos dias lendo todas as notícias disponíveis a respeito da reunião do Intercomites Brasil realizada no último dia 10 de setembro de 2.012, que, deveria ser composta por todos os presidentes dos Comites com as autoridades italianas, cujo assunto mais evidente – ao menos esta foi a expectativa, já que não houve divulgação da pauta da reunião – eram os números da fila e os efeitos da task force já desativada.

Primeira constatação: somente a Revista Insieme, através de posts no sítio da revista e suas repercussões nas redes sociais, ao menos Facebook e Twitter – os quais também sigo – deram notícias a respeito da reunião e de suas conclusões. E não é de hoje que a Insieme acompanha estes números, cobrando, fiscalizando e exigindo sempre as devidas explicações.

Das trocas de mensagens e posts nas redes sociais e edições eletrônicas durante a reunião e logo em seguida, constatou-se um segundo fato: foi solicitado aos presentes que não fosse divulgada nenhuma informação a respeito dos assuntos tratados, com o que houve concordância dos presentes, já que nada chegou ao nosso conhecimento pelos nossos representantes, mas por outras fontes, especialmente da imprensa.

Terceira constatação: à reunião foram convidadas personalidades que não são presidentes de Comites, mas ligados diretamente a um determinado partido político italiano bastante conhecido no Brasil, cujo motivo do convite e presença podem muito bem ser justificados em razão da gravidade do problema “filas da cidadania” e a natural busca de soluções, mas como não sabemos quais foram os critérios e pauta da reunião, ficamos, no mínimo, curiosos para saber o resultado, muito menos do motivo destas presenças.

Não posso me furtar a uma manifestação, em razão de ser conselheiro do Comites desde 2005, cuja atividade me tem trazido uma noção exata da falta de importância com que somos tratados, mesmo sendo os representantes eleitos da comunidade. Todas as inúmeras outras atividades que desenvolvo em nome da comunidade italiana – sendo recentemente chamado exatamente por você mesmo, Jornalista Peron, de “O Molossi dos 7 instrumentos” – e que muitos conhecem, podem ser até mais interessantes, como escrever mensalmente para a Revista Insieme, mas confesso que uma das razões pelas quais continuo insistindo na “orquestra” é poder contribuir de alguma forma para que os direitos dos cidadãos sejam respeitados, sempre, mas sem demagogia, coisa que não tolero.

Difícil falar de falta de interesse do governo italiano, das autoridades que aqui trabalham, já que estão fazendo o que é possível, com as limitações de orçamento, de falta de recursos, especialmente de pessoal para cuidar dos trâmites da cidadania, para dar uma resposta para as imensas filas da cidadania que ainda nos colocam em grande desvantagem em relação aos nossos vizinhos argentinos, por exemplo, que têm sido privilegiados duplamente, eis que tiveram mais atenção quando as “vacas ainda eram gordas”, com mais interesse dos próprios, por ser a imigração mais recente e até a proximidade geográfica de suas comunidades, além das facilidades de documentação, pela desnecessidade das famosas legalizações de documentos que o Brasil ainda não possui, por razões de tratados bilaterais que infelizmente não temos aqui.

Podemos reclamar, protestar, xingar e até mesmo, como já se vê circulando pelo país inteiro (inclusive dentro do próprio Intercomites), fazer algumas manifestações políticas com intuitos claramente eleitoreiros, mas eu prefiro dizer que confio nas instituições e nas pessoas, especialmente as que conheço aqui do meu convívio, e, quem sabe, por isso, me permitirei perguntar aos incomodados e aos sempre representantes de alguma coisa, que não são poucos: – O que você tem feito para ajudar os governos e as instituições a resolver os problemas de sua comunidade, ou mesmo do país que tanto cobras antes de esperar que o governo faça por você? Esta pergunta não é nova, pois foi proferida pelo então Pres. dos Estados Unidos, John F. Kennedy, mas resume bem uma série de coisas que sempre acontecem, em qualquer lugar do mundo. Para muitos posso dirigir outra pergunta: – Certo que a cidadania é um direito constitucional e incondicional. A sua contribuição tem sido de, no mínimo, aprender o básico do italiano, aspectos da cultura e da história, ou simplesmente a cidadania italiana será importante para fazer compras em Miami sem precisar de visto norte-americano?

Também vi circular mais de uma vez algumas propostas para que os membros do Comites, claramente deslegitimados pelas prorrogações intermináveis de seus mandatos renunciassem aos cargos que vem desde 2004, em sinal de protesto contra a situação atual da falta de empenho do governo italiano em resolver as questões relativas aos italianos que vivem no exterior. Confesso que mais de uma vez me senti tentado de fazê-lo, já que a nossa atuação realmente não tem sido relevante para ajudar na tentativa de encontrar soluções, pois nossos votos e pareceres não são vinculantes e a pouca verba anual que tem os Comites fica restrita ao poder decisório do Presidente e seus compromissos, sendo que das prestações de contas eu, como conselheiro, nunca tive acesso para saber se alguma coisa efetivamente é destinada ao bem dos interesses da comunidade. E renunciar, inclusive de maneira coletiva, na minha ótica, seria efetivamente concordar que estes órgãos de representação não significam nada para as autoridades italianas, senão gastos, enfraquecendo ainda mais a instituição, bem como um desrespeito aos eleitores que nos votaram e, ao menos, da minha parte, tenho todo o respeito por cada um dos votos que recebi para estar neste conselho.

Voltando ao assunto das filas da cidadania, os números que vem sendo apresentados, acompanhados e discutidos por longos anos pela Revista Insieme podem efetivamente trazer algumas suspeitas que muitas vezes escutamos em conversas aqui e ali, de que nem sempre as posições na fila são respeitadas, possivelmente pela ação dos “despachantes” que existem em todos os lugares e que, de alguma forma agilizam as coisas para alguns, ou porque existem pessoas que se inscrevem e simplesmente nunca mais se interessam, outros porque não tem a documentação necessária ou porque conseguem em outros consulados ou mesmo diretamente na Itália. Tudo isso forma um cenário difícil de entender e explicar, aliado ao crescente desmantelamento dos meios e redução de pessoas, já mencionados antes, o que compromete o correto cumprimento da lei e a concessão imediata do direito que tantos ítalo-brasileiros almejam e esperam ansiosamente.

Claro que os ítalo-brasileiros, sendo a maior colônia de oriundi no mundo, têm o direito de exigir que todos que possam fazê-lo tenham a dupla cidadania e é dever do Governo Italiano cumprir a norma enquanto prevista na Constituição e, quando isso acontecer, teremos o maior colégio eleitoral italiano no exterior e, assim, podermos contribuir ainda mais com nossa força em favor da manutenção dos vínculos com a pátria-mãe. Corretas as manifestações, as cobranças, até mesmo para que aqueles que têm o dever de cumprir a lei entendam que isso deve ser feito e não aceitaremos mais sermos enganados. Mas não atacarei ninguém, não farei nenhuma acusação sem provas, já que sei que a verdade é uma só e se alguém está se aproveitando de todas estas situações para alguma vantagem ou mesmo se omitindo quando deveria agir, em algum momento, atual ou futuro, terá que concordar comigo e prestar contas, já que estaremos sempre antenados e cobrando e que não seja apenas e tão somente a Revista Insieme a fazer isso.
Luis Molossi.”