“Governo italiano agora escreve que nasci na Croácia”, lamenta emocionado empresário no ‘Dia da Lembrança’, em Curitiba

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Houve emoção – e até choro sentido – na singela manifestação promovida pelo Circolo Giuliano, ao final da tarde de sábado último (16), nas dependência da capela Imaculado Coração de Maria, ao lado da “Capelinha da Água Verde”, em Curitiba. O empresário italiano Marino Stolfa, de 83 anos, ao final abraçou a presidente do Circolo Giuliani de Curitiba, Maria José Cettina de Luca, chorando e dizendo: “Você fez uma coisa muito bonita, maravilhosa!”.

“Nós fomos esquecidos também pela Itália – acrescentou Stolfa em sua manifestação emocionada – , a nossa terra italianíssima” cantada inclusive por Dante Alighieri em sua Divina Comédia, como ele lembrou. “Eu sou um dos últimos sobreviventes – desabafou – e estou de mal com o governo italiano que ignorou a lei e agora escreve que eu nasci na Croácia”.

Mesmo fora da data, que transcorreu dia 10 com eventos na Itália e em diversas partes do mundo, incluindo Brasília, celebrava-se ali, o “Giorno del Ricordo” – um dia muito especial dedicado à memória da tragédia dos italianos vítimas das ‘foibas’ e do êxodo de suas terras – Ístria, Dalmácia e Fiume, na parte setentrional da Itália – no seguir de terríveis episódios de perseguição étnica ainda na sequência do grande palco da II Guerra Mundial.

Italianos eram perseguidos e mortos apenas por serem italianos. Durante missa celebrada na pequena capela, repleta de fiéis, rezou-se pelas vítimas do passado e também do presente, com o especial pedido para que ninguém mais tenha que morrer ou fugir de suas casas e de sua pátria por motivos étnicos.

No dizer da presidente do Circolo Giuliani de Curitiba, nem mesmo a Itália conhece bem a terrível história de cerca de 20 mil homens, mulheres e crianças atirados vivos em furnas ou buracos profundos, fatídico episódio que contabiliza, também, a fuga, em 1947, de cerca de 350 mil pessoas que se esparramaram mundo a fora, incluindo diversas cidades do Brasil, entre as quais Curitiba.

Ao final da missa, Maria José Cettina de Luca dirigiu-se aos presentes nos seguintes termos: “Agradecemos à Paróquia do Sagrado Coração de Jesus e mais especialmente ao padre Maurício per nos terem acolhido em suas orações.

A nossa associação representa algumas famílias italianas que se estabeleceram em Curitiba em 1951 e que vieram da Itália após terríveis episódios de perseguição étnica em uma guerra civil que aconteceu na parte do nordeste da Itália, nos idos de 1944 e que culminou com o tratado de Paris em 10 de fevereiro de 1947, no qual a Itália cedeu parte do seu território (Terras da Istria, Dalmacia, Fiume) ao que se tornou na época a comunista Iuguslávia de Tito.

Gostaria de explicar o motivo desta celebração. O dia 10 de fevereiro para nós é uma data muito importante. O parlamento italiano estabeleceu através da lei nº 92 de 30 de março de 2004 o  ‘10 de fevereiro’ em alusão à data em que foi assinado o já mencionado tratado de  Paris, como o “Giorno del Ricordo” e ficou ali estabelecido que este dia se tornasse ocasião solene para honrar e celebrar a memória dos que morreram, sofreram, tornaram-se refugiados e espalharam-se pelo mundo naquele pós guerra. Também para divulgar uma história triste e dura que nem mesmo todos os italianos conhecem. Este dia representa para nós o marco da perda e do sofrimento daqueles tempos, pois os episódios que ali aconteceram foram terríveis, muito piores até do que os da segunda guerra mundial em si. Tratam-se de perseguições étnicas contra os italianos que ali moravam, onde muitos foram torturados ou morreram somente por serem italianos.

Por muitos anos toda a nossa história foi mantida em silêncio, e desconhecida até mesmo dentro da própria Itália. Então esta data é também um símbolo do reconhecimento, ainda que tardio, do sacrifício daquelas famílias. A história é longa e muito triste, mas precisa ser conhecida e contada, pois é a verdade. Jesus disse: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Esperamos que a verdade do que vivemos e que está vindo à tona sirva de inspiração para a paz, a tolerância, o respeito, o perdão e o amor, em um mundo atual aonde tristes episódios como aqueles continuam acontecendo. Os cenários são outros, mas da mesma forma pessoas continuam sofrendo, sendo expulsas das suas casas, tendo as suas famílias separadas e buscando apenas sobreviver em um lugar onde possam viver em paz, nutrindo em seus corações o simples sonho de voltar para casa.

Celebrar o ‘Giorno del Ricordo’ assume, portanto, um grande valor civil e humano, aquele de manter viva a memória de um período trágico da história italiana. A título de ilustração, tem-se registro de cerca de 20.000 mortos nas “foibas” (furnas ou ‘buracos’ na rocha comuns naquela região, com profundidade de até 1km), onde eram jogados vivos, e um êxodo de 350.000 pessoas que abandonaram tudo em fuga naquele ano de 1947. O que ali aconteceu no pós guerra foi reconhecido como crime contra a humanidade.

Temos presentes em Curitiba muitas famílias que viveram todas estas horríveis experiências e que aqui prosseguiram com suas vidas, contribuindo com a sociedade curitibana. A missão do “Circolo Giuliano de Curitiba” é a de manter vivas as chamas da cultura giuliana e a da memória histórica, para que episódios assim tristes nunca mais se repitam.

Agradecemos novamente pela oportunidade de contar um pouquinho de nós e mais ainda agradecemos pelas orações. Convidamos a todos para que diariamente coloquem em suas orações uma prece pela paz. A tão esquecida e tão importante paz. Obrigada”.