Lista de Maddaloni tem 251 envolvidos. Cartórios brasileiros também teriam participado da falsificação de documentos, diz Scarpelli

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Uma nova relação de brasileiros com cidadania italiana suspensa vem se juntar à já extensa fila de cidadanias por direito de sangue ‘sub judice’ ou suspensas na Itália em função da ação criminosa da chamada “máfia dos coiotes”. São exatos 251 nomes inscritos em Maddaloni, um município com 36 quilômetros quadrados da Província de Caserta, região da Campânia. Mais grave que outras listas já conhecidas, onde a maioria dos problemas se relaciona à questão da residência, esta inclui crimes de falsificação de documentos, inclusive consulares, e contaria também com a participação de cartórios no Brasil.

Dentre os responsáveis estão um brasileiro – Silas Silva de Araújo – residente em Mantova e com ligações com uma tia residente no Brasil, de nome Vera Lucia Delziova da Silva e outra pessoa residente em território inglês, identificado apenas por Júlio, além de três italianos, estes responsáveis pelos serviços de alojamento e de assentamento de registros municipais: Giuseppe Cembrola, Michele Mravita e Gaetano Mele. Segundo informa a Insieme o advogado Luiz Scarpelli, atualmente residindo em Roma, Silas foi condenado a seis anos de cadeia e já está preso.

Segundo se lê na descrição dos delitos constante do processo, a máfia de Maddaloni recrutava interessados, produzia documentos falsos tanto no Brasil quanto na Itália, valendo-se inclusive de falsa PEC (e-mail certificado, criado ‘ad hoc’), através da qual redigiam documentos aparentemente emitidos pela Embaixada e Consulados italianos no Brasil para o registro de cidadanias italianas ‘iure sanguinis’, inscrição no Aire (o cadastro geral de italianos residentes no exterior) e fornecimento de documento de identidade com o qual as pessoas conseguiam permanência na Itália ou na Inglaterra. Tudo isso mediante a cobrança de somas de dinheiro não descritas no processo.

A maior parte dos integrantes da lista de Maddaloni fornecida a Insieme juntamente com outras peças do processo, é constituída de brasileiros, provenientes de diversas partes do Brasil. São muito poucos os nomes de outros países. No processo judicial estão descritas as atividades de cada participante da quadrilha.

Hoje à tarde, em vídeo-entrevista a Insieme, Scarpelli reafirmou informações de outubro do ano passado, quando preconizava uma espécie de “Lava Jato da Cidadania” envolvendo cerca de 70 empresas de assessoria sob a mira da polícia italiana. Na entrevista de hoje, o advogado – que momentaneamente se encontra no Brasil – analisa os braços brasileiros dessa “organização criminosa” que se vale, segundo ele, das redes sociais para “pescar” incautos.

O caso de Maddaloni, segundo ele, é mais grave porque boa parte das pessoas envolvidas não têm sequer sangue italiano. Ele diz que vem monitorando a “máfia da cidadania” há três anos e que entregará ao ministro Sergio Moro, da Justiça, um relatório completo contendo nomes e serviços brasileiros que contribuem para a “máfia da cidadania”. “Tenho a informação de que muitas pessoas serão presas nos próximos dias na Itália”, acrescenta o advogado.

“Detectamos – aduz Scarpelli – que a máfia atua através de dois braços: um monta documentos, pastas falsas para pessoas que não têm sangue italiano, também fazem a residência falsa na Itália pagando propina para servidores públicos italianos corruptos. Este é um braço e Maddaloni está dentro dessa linha. Há inclusive a participação e ajuda de cartórios brasileiros, segundo ele. O outro braço da máfia “faz tudo falso na Itália, mas a família tem sangue italiano”.

Segundo Scarpelli, todos os ‘assessores’ agora presos eram nomes conhecidos, que fizeram centenas de processos: Siracusa, Maddaloni, Caserta, Brusciano, Ospedaletto Lodigiano, Pádova agora, Verbania, Novara… ou seja: é muita gente. “E eram os bam-bam-bam da cidadania. Sei de nomes de “assessores” sob investigação que estão, neste momento, captando clientes e fechando contratos”, adverte Scarpelli.

O advogado, na vídeo-entrevista, explica como funcionam as “grandes redes de pesca” montadas em grupos de ajuda nas redes sociais, onde os “pescadores” usam perfis falsos. “São falsos grupos de ajuda para aplicar golpes”, diz ele. “Quando a pessoa percebe, já está envolvida”. Ele cita que muitos lesados agora estão lá [na Itália] sem documentos, sem dinheiro para voltar e ainda com seus nomes envolvidos nesses processos judiciais, enquanto os ‘assessores’ que cobraram altas somas para ajudá-las estão, ou presos, ou fugiram da Itália.