Luto na Colônia Nova Itália: Morre ‘Dona Dinha’ aos 108 anos de idade. Era filha do imigrante Agostino Angeli

Colônia Nova Itália/São João Batista – A Pioneira colônia de italianos no Brasil amanheceu de luto, nesta segunda-feira. Em sua residência, na Estrada Geral de Colônia Nova Itália, às 20h30min de domingo (9 de janeiro de 2022) faleceu a viúva Bernardina Angeli Fagundes, dona Dinha, vinda à luz em 12 de abril do ano da graça do Senhor de 1913, fruto da união matrimonial contraída, aos 13 anos, por Maria Augusta Pera com o imigrante italiano Agostino Fidelle Angeli.

Aos 108 anos, dona Dinha partiu para a vida eterna. Pranteando sua morte, além de uma legião de amigos, [estão] os seus três filhos, oito netos, nove bisnetos e demais familiares.

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Seu corpo está sendo velado na Capela Mortuária de Colônia Nova Itália. E seu sepultamento será realizado nesta segunda-feira, no Cemitério São José, após a celebração da missa de corpo presente, às 16h, na capela São José de Colônia Nova Itália, em São João Batista.

Até recentemente, Bernardina Angeli Fagundes, a dona Dinha, ainda trabalhava e irradiava paz e alegria no “Berço da Imigração Italiana no Brasil”.

Imigrante Italiano – O pai de dona Dinha chegou ao Brasil com 19 anos, juntamente com o irmão Domênico Fidelle Angeli, o bisavô do agricultor e memorialista da Colônia Nova Itália, José Sardo, o Saulo.

Agostino e Domênico Fidelle Angeli emigraram da Itália para o Brasil objetivando reencontrar o pai, Giuseppe Fidelle Angeli, que viera para o Brasil há aproximadamente 17 anos. A mãe de Agostino e Domênico, Páscoa Landim, falecera na Itália.

O imigrante italiano Beniamino Gallotti, nascido no dia em 21 de abril de 1853, em Nápoles (cidade no sul da Itália, no Golfo de Nápoles, próxima ao Monte Vesúvio, vulcão ativo que destruiu a cidade romana de Pompeia), que emigrou para o Brasil em 1873, havia contraído segundas núpcias com Francesca Angeli Gallotti, filha de Giuseppe Fidelle Angeli e irmã de Agostino e Domênico.

Beniamino Gallotti dedicou-se ao comércio, tornando-se, em pouco tempo, o mais próspero negociante de Tijucas, onde chegou a exercer importante influência política. Ainda durante o Império, foi nomeado coronel da Guarda Municipal e eleito presidente da Câmara local. Com o advento da República, ingressou no Partido Federalista.

E foi marcante o reencontro do pai e do avô paterno de dona Dinha em Tijucas. Com a chegada dos cunhados Agostino e Domênico em seu casarão residencial, que também abrigava o seu comércio, Beniamino Gallotti mandou avisar o sogro Giuseppe Fidelle Angeli, que residia no território do atual município de Major Gercino, para que viesse visitá-lo em Tijucas. O pai dialogou com os filhos, mas não os reconheceu, haja vista que possuíam apenas dois e três anos quando os deixara em Itália. Assim, Francesca e Beniamino Gallotti ‘apresentaram’ os dois filhos ao pai Giuseppe Angeli.

Dona Dinha, a mais nova entre 10 irmãos, ficou órfã de pai aos oito anos. Sempre residiu na Colônia Nova Itália, em terras que pertenceram aos seus avós maternos, os imigrantes italianos Maria Gambetta e Giuseppe Pera.

Do sacramento do Matrimônio celebrado com José Anastácio Fagundes, Bernardina Angeli Fagundes deu à luz Maria Fagundes Gonçalves, Terezinha Angeli Fagundes e José Santino Fagundes. Vitimado por câncer que destruiu parte de sua face, dona Dinha ficou viúva aos 37 anos, com três filhos pequenos para criar, tendo o mais novo apenas 1 ano e 1 mês. “Nós não passamos fome, pois eu criava galinha, porcos, vaca de leite, plantava verduras, legumes e frutas”, recordava.

Força de vontade e trabalho – Força de vontade e trabalho marcaram a centenária história de vida de Bernardina. Mesmo com a idade avançada ela ainda trabalhava. Junto da filha Terezinha confeccionava estopas, tecidos sobrepostos costurados e utilizados para limpeza. O trabalho exige bastante paciência. Pedaço a pedaço, delicadamente, ela dispunha os pequenos tecidos num pano maior. Dobrava e empilhava na mesa. A costura era feita na própria casa.

Bernardina recordava que, anteriormente, trabalhava na roça, “onde eu plantava milho, feijão, mandioca”. E com um sorriso estampado no rosto, lembrava que “meu pai morreu, casei, fiquei viúva aos 37 e tinha as crianças para alimentar. O sogro mandou dar os filhos, porque dizia que eu não dava conta de cria-los. Fiquei até 80 anos na lavoura e estão todos criados”.

Dr. Carlos Moritz – Aos 54 anos, dona Dinha sentiu-se muito doente e foi hospitalizada no Hospital Arquidiocesano Cônsul Carlos Renaux, o Hospital Azambuja, em Brusque. O médico Carlos Moritz a examinou e, sem contar com os exames de imagem hoje existentes, diagnosticou que dona Dinha deveria “estar grávida” há sete meses.

Submetida a uma delicada cirurgia, foi retirado um tumor de dois quilos. Ainda muito debilitada, retornou para o lar e gradativamente passou a reassumir as atividades diárias. Após o duro trabalho na roça, na plantação de mandioca, arroz, feijão e outros produtos, o cuidado com os animais, em especial com a vaquinha de leite. Segundo testemunha José Sardo, o Saulo, dona Dinha ainda costurava “para fora” até às 22h ou 23h.

Dona Dinha e os finados – Embora sempre presente em nossas vidas, os mistérios que cercam a morte acabam nos instigando e gerando vários sentimentos. A confrontação do homem com a morte proporciona um sentimento de temor, que é amenizado a partir da atribuição de significações que remetam a uma ideia da continuidade da existência humana. Trata-se de encarar a morte não como um fim, pois ela é apenas uma passagem, um marco de transição entre a vida terrena e a vida eterna.

As atitudes diante da morte e dos mortos foram se modificando durante o curso do tempo. E dona Dinha, segundo atesta o memorialista Saulo Sardo, por décadas, praticou a caridade cristã de “forrar o caixão dos defuntos”.

Quando era noticiado um óbito, lá ia Bernardina com “tesoura e linha na mão” para a casa do fiel defunto. Enquanto os “carpinteiros da redondeza” confeccionavam o caixão, Dinha ajeitava os tecidos e os cortava para forrar o caixão com tecido preto. Zelosa, Bernardina também fixava uma renda amarela de 5 cm embaixo da tampa. Encimando a tampa, Dinha traçava a Cruz de Cristo com a mesma renda amarela e a fixava com percevejos.

Emprego aos 104 anos – Após 15 anos de trabalho fiel para uma facção da fábrica de estopas de Porto Belo-SC, com o falecimento do proprietário da empresa, dona Dinha ficou desempregada.

A filha, Terezinha Angeli Fagundes, que morava com a mãe e forma dupla na produção de estopas, explicou que “ela chorou muito porque estava desempregada. Não pelo financeiro, mas porque gosta de fazer, de não ficar parada”.

Já a centenária dona Dinha declarou então que “eu preciso trabalhar porque é bom. Nem presta ficar desocupada. Quando tenho serviço, isso faz o tempo passar. Eu também faço meus crochês, tenho minha aposentadoria, mas queria alguma coisinha, assim, como mexer nos paninhos. Como gosto muito de trabalhar, fiquei triste quando paramos de receber as estopas e fiquei desempregada”.

O então secretário de Desenvolvimento Econômico de São João Batista e amigo da família, Plácido Vargas, postou uma fotografia de dona Dinha e contou a razão de sua tristeza, o que causou comoção nas redes sociais.

A notícia de que Bernardina estava procurando emprego aos 104 anos logo chegou à família do antigo patrão, que correu para explicar que a parada foi temporária e que ela estava recontratada. “Quando eu a visitei ela estava muito triste. Queria apenas continuar trabalhando e quando postei a foto dela, os filhos do ex-patrão ficaram sabendo. E foi só alegria quando eles voltaram a entregar os retalhos para a produção das estopas”, comentou Plácido.

Novamente empregada e disciplinada, dona Dinha era uma pessoa que não deixava o trabalho para depois. Montava as estopas e nem lembrava de contar quantas fazia em um dia. Quando o pessoal chegava para buscar a produção, a meta já havia sido batida.

O segredo da longevidade – Dormia tarde e acordava cedo. Como qualquer pessoa, a rotina de Bernardina não era muito diferente. Ativa, não costumava ter horário certo para se deitar. Se aparecia o sono, lá ela ia para a cama que dividia com a filha. Não queria saber de dietas e não se privava de um bom churrasco, onde preferia a gordura da carne. Tinha predileção pela polenta misturada ao leite, diretamente do fogão à lenha, usado todos os dias, mesmo no verão.

“Vou até onde Deus quiser …” – De boa memória, ela lembrava detalhes da vida sofrida. O maior segredo para “durar tanto”, como ela mesma dizia, estava nos calos das mãos. Medo da morte não tinha. Pelo contrário, dizia que estava pronta, caso o “povo do céu”, necessitasse chamar por ela. “Ela estava melhor que nós todos juntos. Sem colesterol, nem diabete, anda por tudo, uma visão perfeita e lúcida”, declarou a filha Terezinha há dois anos.

Quando completou seus 106 anos, a veneranda dona Dinha contava que “acordo às 6h, tomo café feito no fogão à lenha e começo a trabalhar. Nós também criamos galinhas e pintos, temos muito o que fazer. Não sei qual o segredo para viver bem e feliz, quem manda na minha vida é Deus”, relata. E arrematou: “Vou até onde Deus quiser …”

Reconhecimento e homenagens – Além de homenageada na visita do Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel, na celebração dos 180 anos do início da Colonização Italiana no Brasil, também na primeira Festa Típica Italiana, realizada pela Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil – ADANPIB, em 12 de novembro de 2017, durante a Santa Missa presidida pela padre Mário Peixe – SCJ, às 10h, com a Igreja São José lotada, o presidente Saulo Sardo e Helio Paulo Sartori prestaram emocionada homenagem à veneranda Bernardina.

De iniciativa do presidente do Conselho de Administração da ADANPIB, o empresário João Soares, a Assembleia Geral aprovou dona Bernardina Angeli Fagundes para ser “Sócia Benemérita” da Associação, em vista de todo o bem “que pela graça de Deus dona Dinha proporcionou e proporciona à Colônia Nova Itália”.

Mensagem da Adanpib – “A presença do Senhor Ressuscitado, no momento de dor e sofrimento com a separação causada pela morte, nos reconforta e enche de esperança, estimados familiares e amigos de Dona Dinha. Nós, integrantes da Adanpib [Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil], rogamos: Descanso eterno dai-lhe, Senhor; e a luz perpétua a ilumine.

Seguramente nossa prece auxilia e dá conforto tanto à família que chora a perda da sua muitíssima veneranda, ilustre e centenária matriarca quanto a alma que caminha para o encontro definitivo com seu Criador.

Mas a vida, Senhor, que inspirastes por um sopro, permanece como germe imperecível dum viver que não fenece. A esperança nos consola: nossa vida brotará. O primeiro a ressurgir, Cristo, a Vós levará a nossa mui estimada Bernardina Angeli Fagundes, a Dinha de todos nós. Amém!”

  • Paulo Vendelino Kons é historiador.