Pandemia: O recorde italiano de 969 mortos num só dia. A bênção extraordinária do Papa e esperança de que a doença tenha alcançado a curva máxima e comece a declinar

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“Os italianos voltaram a rezar e a apelar a Deus”


No dia em que o número de vítimas fatais da pandemia do coronavírus na Itália atinge outro recorde (969 mortos em apenas 24 horas), o papa Francisco vem a público para, numa bênção extraordinária ‘Urbi et Orbi’ em meio a ‘densas trevas’ pedir a Deus que “não nos deixe em meio à tempestade”, enquanto o o presidente da República, Sergio Mattarella, renovava apelo à intervenção europeia “antes que seja tarde demais”.

“Há semanas – disse o Papa em sua oração diante de uma Praça São Pedro literalmente vazia – , parece que a noite desceu sobre nós. Pesadas sombras se adensaram sobre nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se de nossas vidas enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e de uma visão desoladora, que paralisa cada coisa em sua passagem. (…) Senhor, abençoa o mundo, dê saúde aos corpos e conforto aos corações”, pediu o Papa.

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“Tomamos consciência de que estamos no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo todos convocados a remar juntos”, disse o Pontífice.

Segundo Claudio Piacentini, com quem gravamos vídeo-entrevista hoje à tarde diretamente de Varazze, na Itália, a esperança dos italianos é de que a pandemia esteja chegando a seu ponto máximo. Os números indicam que, embora aumente o número de vítimas fatais, o número de pessoas contagiadas está em declínio: Ontem eram 4.492; hoje são 4.401.

O número total de mortos, desde o início da pandemia, se aproxima dos 10.000 (exatos 9.134). “Provavelmente nós estamos no pico máximo da pandemia, isso – segundo dizem os técnicos – poderá ser neste domingo” e hoje “foram os números mais dramáticos até agora”, disse Piacentini.

O tradutor da revista Insieme fala sobre o que chama de “momento historicamente mais importante” dos últimos 80 anos, depois da II Guerra Mundial: “não vou dizer que as pessoas estejam cansadas”, “mas assim radical” como está, o confinamento certamente “vai começar a pesar no aspecto psicológico da população”.

É dentro desse momento que ele insere também a ação do Papa que, para os que acreditam, é carregada de um simbolismo e um significado todo especial. “Em dois mil anos de papado, poucas vezes ao longo da história o Papa apareceu dessa forma tão extraordinária”.

Embora com o confinamento seja mais difícil de aferir o comportamento das pessoas, “eu acho que em muitas casas, individualmente ou coletivamente, os italianos voltaram a rezar e a apelar a Deus”- disse Piacentini. Segundo ele, dá para perceber isso inclusive nas mensagens trocadas com amigos seus.

Piacentini avalia que o governo italiano está tomando decisões firmes e acertadas, inclusive em relação à política que envolve os países da União Europeia. Juntamente com o governo espanhol, o governo italiano não concordou com as formas propostas pelo alto comando da UE para o combate à crise e hoje, quase à mesma hora do pronunciamento do Papa, o presidente Mattarella veio a público para, outra vez, repetir o apelo por medidas extraordinárias aos países da Comunidade Europeia.

Instado a fazer alguma recomendação a países como o Brasil, onde a pandemia teve início depois que a Itália, Piacentini observa que à vista não só do que ocorreu na Itália, mas também daquilo que acontece agora na Espanha e nos Estados Unidos, o melhor caminho é “adotar rapidamente as medidas que a Itália está atuando”, isto é, o confinamento total.

“Não vamos esquecer que a Itália está com sua economia e suas indústrias praticamente paradas e, mesmo assim, ainda não estamos vendo o fim da pandemia”, observa Piacentini. O número de mortos entre médicos (44 mortos), para-médicos, enfermeiros e atendentes infectados é muito alto (próximo dos 10 mil). “Não se conhece nenhum tipo de remédio para combater a pandemia”, então “a única forma é ficar em casa, não ter os contatos sociais”, conclui Claudio Piacentini.