Renúncia de Minatti em protesto contra a prorrogação de mandatos e adiamento das eleições dos Comites desencadeia aceso debate

A presidente do Comites de Minas Gerais, Silvia Alciati diz: “Estou legitimamente me sentido “usada” pelo governo. (…) Nunca vi nenhum país suspender as eleições sem ser acusado de adotar uma ditadura velada”.


CURITIBA – PR – A renúncia de Ivanor Minatti ao cargo de conselheiro do Comites Paraná/Santa Catarina acirrou um pouco mais os debates em torno do adiamento das eleições para a renovação do único organismo de representação democrática dos italianos no exterior. Assim que a renúncia foi tornada pública,  conselheiros e presidentes de Comites e membros do CGIE – Conselho Geral dos Italianos no Exterior trataram de pedir que Minatti reconsidere sua decisão, enquanto outros manifestavam dúvidas a respeito do ato ou, mesmo, compartilhavam da posição assumida, em protesto contra a “eliminação da democracia por decreto”.
O mandato dos atuais conselheiros foi prorrogado automaticamente até as próximas eleições que, em tese, foram adiadas para  2012 – mais de três anos depois de vencido o tempo para o qual foram eleitos em 2004. O decreto do Conselho de Ministros foi a debate no Parlamento para ser transformado em lei, com o apoio da maioria e rejeição de todos os partidos minoritários. Por trás do adiamento, defendido pela maioria sob o argumento de que é preciso mudar a lei, está um motivo que coloca junto “a fome com a vontade de comer”: economia orçamentária, equiparável ao corte dos gastos com difusão da cultura e da língua italiana em todo o mundo, consequência da crise que afeta quase todos os países da União Européia.
Uma frenética troca de e-mails a que Insieme, parcialmente, teve acesso, fornece uma espécie de mapa das posições até aqui assumidas: a presidente do Comites de Belo Horizonte, Silvia Alciati, assim que soube do fato, escreveu: “Então vou desabafar um pouco com vocês… eu ja manifestei o mesmo desejo de me demitir do cargo, por motivos parecidos, creio eu, do Ivanor… (…) Estou legitimamente me sentido “usada” pelo governo… Como diz o Fabio Porta… a Democracia é algo que não pode ser suspensa… nunca vi nenhum país suspender as eleições sem ser acusado de adotar uma “ditadura” velada… estão cortando nossos financiamentos, nossas energias e até mesmo nossa natural renovação…no meu Comites, 10 membros têm acima dos 75 anos … é um desrespeito pedir a eles para permanecerem… e é uma prova de resistência pedir para que eu os carregue nas costas por mais 2 anos… Sirvo o meu país com todo meu coração e muito orgulho, mas o meu país, desta forma não está me tratando nem mesmo com o respeito…”
Alciati diz que o que está acontecendo “é muito sério… eu não gostaria de um dia ser acusada pelos meus eleitores de ter assistido a este abuso de poder sem fazer nada… e como temos bem pouco a fazer, talvez a demissão seja uma das poucas ações possíveis…. Se todos se demitissem talvez eles seriam obrigada a recorrer a novas eleições inevitavelmente. Sei que meu ato individual não resolveria absolutamente nada, apenas criaria outros problemas e prejudicaria minha circunscrição… Mas todas as ações são sujeitas a dupla interpretação…. por isso ainda vou pensar muito sobre isso.
Mas ficaria muito feliz se todos se manifestasses sobre isto.” 
O presidente do Comites do Recife, Salvador Scalia, propôs renúncia coletiva e antecipou que seu voto seria pela renúncia, acatando, entretanto, a posição da maioria.
A posição de Ivanor e de Silvia foi contestada pelo conselheiro do CGIE, Walter Petruzziello: “Cara Silvia, Como você mesmo disse tudo é possível de dupla interpretação e, como você pediu manifestação, vou dar minha opinião:
Se todos nós renunciarmos, o Comites será extinto, o Governo faria uma economia do valor para os próximos dois anos (o que ele gostaria muito) e nós não teríamos nenhuma voz para protestar ou para nos reunirmos e continuarmos nosso trabalho. Acho que o tiro sairia pela culatra. Aqueles que querem ver estes organismos extintos teriam mais armas para usar contra nós. Vamos continuar trabalhando e exigindo (agora não tem mais desculpas) uma lei decente que nos leve as próximas eleições com dignidade, afinal os parlamentares terão tempo de sobra para fazer uma lei decente. Outra coisa: não se sinta culpada, afinal não fomos nós que nos auto-prorrogamos. Precisamos de gente como você”.
Ao escrever a Minatti, Petruzziello desceu a outros detalhes: “Prezado Ivanor. Entendo tua posição e, como já disse, a renuncia é um ato personalíssimo que não pode ser delegado. Me permito, porém, diante da tua justificativa, fazer os seguintes comentários: você deve ter outras razões para pedir demissão pois tua justificativa não é absolutamente proporcional ao teu ato. Veja só, primeiramente o Decreto que prorrogou o mandato está em discussão no Parlamento e ainda não foi aprovado e caso não venha se-lo, as eleições se realizarão no prazo anteriormente estipulado (sic). Se esta foi a sua justificativa, você poderia ter esperado o resultado final da discussão no parlamento, que já esta acontecendo. Em segundo lugar, considero tua renúncia uma falta de consideração com aquelas associações que te indicaram para “cooptado” e com os conselheiros que te elegeram. Não foram estas entidades que se auto prorrogaram e, portanto, não podem ser acusadas de anti-democráticas, como você menciona.  Nossa luta deve ser feita de dentro do Comites e CGIE para que tenhamos uma lei que, efetivamente, represente os anseios de nossa comunidade e não é fugindo que vamos resolver os problemas. De qualquer forma, um dia a verdade virá a tona.”
O também conselheiro do CGIE, Antonio Laspro, escreveu concordando com Petruzziello, enquanto Claudio Pieroni, outro conselheiro, acrescentava: “concordo com as afirmações do Walter e do Anesi e do meu colega Lapro: o momento é estarmos juntos e continuar a lutar pelos Comites, pelo CGIE que sabemos estão muito ameaçados, e, principalmente, pela nossa comunidade que confiou em todos nós. Se abandonarmos o barco é muito ruim para os “italiani all’estero” em geral. Você é um lutador como todos os Conselheiros do Comites do Paraná e Santa Catarina. Reconsidere e fique conosco nesta luta que será muito dura e por isto precisamos de pessoas como você. Vamos cerrar fileiras e ficarmos juntos. Só com nossa união poderemos resistir”.
Danil João Anesi, um conselheiro do Comites do Paraná/Santa Catarina que reside em Blumenau também tenta mudar a posição de Minati: “Eu também fui indicado pelas associações de nossa região como cooptado, por dois mandatos consecutivos. Porém, após a aprovação pelos conselheiros eleitos me considero também conselheiro com a mesma legitimidade, tanto quanto aos eleitos por voto. Entendo que os cooptados é uma formula de ter representantes de regiões com descendentes de Italianos natos ou com dupla cidadania, que não obtiveram representação por voto. Diante do explicativo do dr. Walter Petruzziello, acredito que deverias rever teu posicionamento.”
Do Recife, o presidente Salvador Scalia mandou um recado lacônico: “Sem teorizar muito, meu voto é pela renuncia coletiva, mas respeitarei a vontade da maioria”.
Uma das respostas veio de Petruzziello: “Caro Scalia. Sem polêmicas, mas apenas como subsidio,me permita discordar de você. A renúncia (como já falei várias vezes) é um ato pessoal,indelegável e intransferível. O que quero dizer é que quem quiser renunciar pode fazê-lo, mas não pode exigir a renúncia dos demais e nem dizer que renuncia se todos renunciarem”. Bota e resposta, responde Scalia: “Caro Petruzziello,
 sem polêmicas, permito sua discordância, permita expressar minha opinião. Meu voto é pela renúncia coletiva, se a maioria decidir o contrário, acato a decisão da maioria. Não estou exigindo nada de ninguém, é apenas um voto, não uma exigência (nem poderia ser).

Grande abraço”.
Enquanto isso, o presidente do Comites PR/SC, Gianluca Cantoni, escrevia a Minatti: “Caro Ivanor, se estás de acordo, depois de todas essas reações à tua renúncia, ela não será considerada. Espero um comentário teu para redigir a ata”.
Ivanor Minatti não foi encontrado. Está viajando para a Itália, representando a comunidade trentina do Brasil nas homenagens por ocasião do primeiro aniversário da tragédia que vitimou o diretor da “Trentini nel Mondo”, Rino Zandonai, juntamente com o deputado trentino  Giovanni Battista Lenzi e o prefeito de Canal San Bovo,  Luigi Zortea, no vôo AF 447 da Air France, em pleno Oceano Atlântico, no final de maio do ano passado.

PATROCINANDO SUA LEITURA

Notas do redator:
1 – Todos os Cômites são compostos por conselheiros eleitos diretamente pelo voto (podem votar apenas os que têm cidadania italiana reconhecida) e, proporcionalmente, alguns indicados pelos conselheiros eleitos, na condição de “cooptados”, representando aquela parcela (que é sempre maioria) de ítalo-brasileiros que ainda não obtiveram o reconhecimento da cidadania italiana por direito de sangue. Ivanor Minatti era um deles, assim como Anesi, que também se pronuncia.
2 – Os conselheiros do CGIE, ao contrário daqueles dos Comites, são eleitos indiretamente. Depois das eleições dos Comites, os conselheiros eleitos, mais representantes de um número nunca sabido de associações indicadas pela Embaixada e pelos Consulados (os critérios sempre foram questionados) se reúnem para a indicação dos conselheiros que representam o Brasil no CGIE – Conselho Geral dos Itralianos no Exterior. É neste processo indireto de eleição que ocorrem os chamados “conchavos”. E são esses conselheiros que, em Roma, somam-se a outros quase cem indicados pelo Governo Italiano, também com base em critérios pouco conhecidos.
3 – A eleição para os Comites em todo o mundo requer uma soma ponderável de recursos que o governo italiano não está disposto a gastar neste momento, devido à crise na área da União Européia. A crise de identidade pela qual passa o CGIE (depois que aportaram no Parlamento italiano deputados e senadores eleitos pelo voto dos italianos no exterior) cunhou o argumento da reforma necessária da legislação, para evitar seu fechamento. Os Comites foram arrastados para este debate das “mudanças necessárias”. As duas crises juntas criaram uma situação parecida com a “união da fome com a vontade de comer”, deixando o governo livre para agir sem ser (muito) criticado pelos diretamente interessados, de alguma forma beneficiários do adiamento… que, por sua vez, confiam na falta de capacidade de protesto dos eleitores esparramados pelos cinco continentes.