Tunel do tempo: Em memória de Giordano Bruno, mártir da liberdade de expressão

No último 17 de fevereiro, há exatos 423 anos, o filósofo italiano Giordano Bruno era queimado vivo na Piazza Campo de’ Fiori, em Roma, em meio a indizíveis sofrimentos. Foi assassinado pelo inquisidor Cardeal Roberto Bellarmino, o mesmo que, dezesseis anos depois, interrogou Galileu Galilei.

Na leitura de sua sentença, o ex-frade dominicano, de joelhos, declarou: “Talvez você trema mais ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la.” No dia de sua execução, com a língua de fora – presa em um torniquete para que não pudesse falar –  em seu coração, certamente ele reafirmou aquilo pelo qual orgulhosamente iria morrer: “Existe um número infinito de mundos diferentes, cada um contendo seu próprio universo.” O ano em que foi assassinado por defender entendimento contrário ao da Inquisição, era o de 1600,

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Segundo observa Gherush92 – Comitê para os Direitos Humanos (Bologna, Italia), “o inquisidor Roberto Bellarmino, em 1930, em pleno fascismo, foi canonizado e, em 1931, foi nomeado Doutor da Igreja”. E, “em 21 de fevereiro de 2001, Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco, foi nomeado cardeal pelo Papa João Paulo II com o título do santo inquisidor Roberto Belarmino”.

Mais de quatro séculos depois, e apesar de toda a ação da Igreja Católica, muitos dos pensamentos de Giordano Bruno permanecem mais que atuais. Rompendo com as teorias de Tolomeu (para quem a terra era o centro do universo) e de Copérnico (para quem o centro de tudo seria o sol), ele assegurava que o universo é infinito e, dessa forma, não possui um centro, coincidindo, assim, com Deus, que é infinito (panteismo). O pensador defendia que “a terra não tem o privilégio de ser o centro do universo, nem de hospedar vida e inteligência: a vida e a inteligência estão presentes em todo o universo”.

Essas e outras ideias sem praticamente nenhum base científica levantadas por Giordano Bruno ao arrepio do pensamento predominante de sua época, ainda hoje seguem em acesa discussão entre cientistas mais bem informados. O tempo provou que Giordano acertava, mesmo não tento a seu dispor instrumentos poderosíssimos como os telescópios espaciais Hubble e James Webb, apenas para citar dois exemplos.

Estátua em bronze de Giordano Bruno na Praça das Flores, em Roma. Obra de Ettore Ferrari -1845-1929 (Foto Wikipedia).

O filósofo afirmava também que “se a alma, a vida, se encontra em todas as coisas e, segundo certos graus, preenche toda a matéria, certamente acaba por ser o verdadeiro ato e a verdadeira forma de todas as coisas […]. Portanto, não apenas a forma do universo, mas todas as formas das coisas naturais são alma e, portanto, todas as coisas são animadas.”(De la causa, principio, et uno)

“Se dunque l’anima, la vita, si ritrova in tutte le cose, e, secondo certi gradi empie tutta la materia, viene certamente ad essere il vero atto e la vera forma de tutte le cose […]. Dunque non solo la forma dell’universo, ma tutte quanti le forme di cose naturali sono anima. E quindi tutte le cose sono animate. La terra non ha il privilegio di essere il centro dell’Universo, né quello di ospitare la vita e l’intelligenza: vita e intelligenza sono presenti dappertutto nell’Universo. (Giordano Bruno, De la causa, principio, et uno)

O “mártir da liberdade de pensamento e expressão” é hoje considerado um dos filósofos mais importantes de toda a história humana. Além de filósofo, é tido como místico, mago, poeta, especialista na “arte da memória”, além de astrônomo, matemático, literato e erudito. Ele “passou como um cometa pela segunda metade do século XVI, quando a Contrarreforma e a Inquisição se armaram para combater ferozmente a liberdade de pensamento e de culto”, concordam seus exegetas.

Depois de ter ensinado seu livre pensar em praticamente tosas as principais universidades da Europa – de Paris a Londres, passando por Genebra, Wittenberg e Frankfurt, ele amargou seis anos terríveis nos cárceres de Veneza e Roma e foi queimado a 17 de fevereiro na Praça das Flores, em Roma. Ali, uma lúgubre estátua recorda o fatídico sacrifício. Seus muitos livros, condenados pela ignorância e pela prepotência de doutores eclesiásticos da época, foram parar no Index.

Imagem de Giordano Bruno (da Wikipédia alemã)

Nascido no ano de 1448 em Nola, área metropolitana de Nápoles, então pertencente à Coroa Espanhola, foi batizado com o nome de Filippo Bruno, em homenagem Fillippo II, herdeiro do trono. Tornou-se frei dominicano, assumindo, aos 15 anos, o nome de Giordano. Foi ordenado presbítero aos 25 anos de idade. Excomungado, abandonou a ordem religiosa que lhe abriu as portas para o livre-pensar.

O filósofo foi acusado de negar várias doutrinas ou dogmas católicos, entre eles a condenação eterna, a Santíssima Trindade, a divindade de Cristo, e a virgindade de Maria. Se não as negava diretamente, tinha suas explicações divergentes daquelas admitidas pela Igreja, como no caso da infinitude do universo, a existência de outros sóis e terras, igualmente com vida… um tema que o coloca, ainda hoje, um pouco adiante dos tempos atuais.

Constantemente mudando de lugar, pulando de universidade em universidade, incluindo a de Oxford, editando suas obras em diferentes centros da época, cometeu um grave equívoco ao aceitar convite de um nobre veneziano de nome Giovanni Mocenigo, que o abrigou em sua casa em troca de aulas de memorização. Foi traído e entregue à Inquisição veneziana, perante a qual alegou que seus escritos não se tratavam de teologia mas, sim, filosofia.

A Inquisição romana, entretanto, pediu a extradição do livre e irrequieto pensador, contra o qual proferiu sentença definitiva assinada pelo então Papa Clemente VIII. Giordano Bruno foi executado oito dias após a divulgação da sentença –  um prazo final para o arrependimento, que não ocorreu. Segundo contam alguns cronistas, era uma quinta-feira ensolarada.

A Wikipedia conta que os arquivos secretos do Vaticano registram: “Nas mesmas salas em que Giordano Bruno foi interrogado, pelas mesmas razões importantes da relação entre ciência e fé, no início da nova astronomia e no declínio da filosofia de Aristóteles, dezesseis anos depois, o cardeal Bellarmino, que então contestou as teses heréticas de Bruno, convocou Galileu Galilei, que também enfrentou um famoso julgamento inquisitorial que, felizmente para ele, terminou com uma simples abjuração”.

Para saber mais sobre o “mártir da liberdade de expressão”, pode-se pesquisar na internet, ver filmes (Giordano Bruno, um filme franco-italiano de 1973, de Giuliano Montaldo, com Gian Maria Volontè, duração: 123min.), vídeos no Youtube e, também, ler muitas de suas obras que estão disponíveis em diversas línguas em arquivos digitais.