Merlo avalia mobilização contra o desmantelamento dos consulados: “Colocamos o problema na ordem do dia”

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Se a manifestação do dia 7 diante dos consulados italianos de toda a América Latina foi um sucesso ou um fracasso, isso não importa; a coisa certa é que o tema do desmantelamento da rede consular italiana foi colocado na agenda política e, agora, terá que haver alguma resposta. Este, em resumo, é o raciocínio do deputado ítalo argentino Ricardo Merlo, presidente do Maie – Movimento Associativo Italiani all’Estero, que convocou a manifestação.

Os números não são grandiloquentes para a área que concentra a maior comunidade itálica do mundo: em Buenos Aires, cerca de 400 pessoas se reuniram diante do consulado. Em São Paulo, o maior consulado da América Latina, compareceram cerca de cem pessoas, sob chuva. Em Curitiba onde reside o coordenador nacional do Maie, Luis Molossi, compareceram menos de 50 pessoas, número mais ou menos igual ao de Porto Alegre, onde o cônsul Nicola Occhipinti desceu para a rua em duplo sinal: apoio às reivindicações “em favor do reforço dos recursos humanos dos consulados”, e repúdio ao que chamou de “iniciativas que têm sabor de propaganda, espacialmente quando são realizadas por movimentos políticos”.

Merlo espera que os cônsules façam agora a sua parte: encaminhem o documento único entregue em cada sede aos embaixadores e que estes o remetam ao Ministério das Relações Exteriores. Na entrevista exclusiva que concedeu por telefone ao editor da Revista Insieme, o deputado aproveita para rebater críticas que sofreu de colegas às vésperas do dia da manifestação e aproveitou para alfinetar a maioria dos parlamentares eleitos no exterior: dos 18 eleitos, 14 deles dizem amém ao governo que, segundo ele, mais contribuiu para o desmantelamento da rede consular italiana no mundo.

O presidente do Maie, cuja origem política confunde-se com o associativismo italiano argentino, assegura que o Brasil é o país onde a rede consular italiana encontra-se em situação mais crítica do mundo todo e, mesmo assim, os três parlamentares aqui eleitos apoiam incondicionalmente um governo que, além de de tudo, taxou os serviços da cidadania. E “aqueles que apoiam o governo, que lhe votam a confiança, poderiam dizer: ou muda isto ou nós não te apoiamos mais!” Mas eles “agem como rebanho de cordeirinhos, como soldadinhos de partido” observa ele, num recado direto ao eleitor.

Segundo Merlo, a luta agora continua no Parlamento, enquanto o partido analisa propostas de ação no campo judicial. Ele não descarta a possibilidade de, ainda este ano, outra manifestação ser convocada. “É possível. Decidiremos juntos, no Maie – explica ele, Para dizer que “falaremos também com os Comites, com o CGIE e associações”. Sobre a devolução de 30% do valor arrecadado com a taxa dos 300 euros para a cidadania, Merlo rejeita o que chama de “esmola”, ironizando que antes Roma comia tudo; agora quer continuar comendo 70%. “Não queremos uma task force’ temporária”, adverte ele e, sim, uma solução definitiva, prometendo não silenciar enquanto os problemas persistirem. Confira a entrevista, na íntegra:

Merlo, como foi o dia contra as filas consulares?

Foi muito bem. Buenos Aires, 400 pessoas. São Paulo, apesar da chuva, 100 pessoas. Maracaibo, em todos os lugares… mobilizamos toda a América Latina por uma causa justa.

Sua avaliação é, portanto, positiva?

Minha avaliação é positiva. Mas será mais positiva quando obtivermos as melhorias necessárias. Esta foi uma forma de chamar a atenção do governo. Espero que o governo nos ouça. Entregamos em cada Consulado da América Latina um documento comum com diversas questões locais. Espero que o governo olhe isso e também espero que meus colegas se conscientizem que esta é uma reivindicação de todos, não de um partido político, e se coloquem do lado das pessoas.

Seu colega, o deputado Fabio Porta lhe criticou duramente às vésperas…

Sim. Mas isso, na verdade, isso não me preocupa porque, ao contrário, quando agem assim, é uma grande demonstração de incompetência. Se eles tivessem a capacidade de fazer algo assim como fazemos nós – e eles não a têm – nós os apoiaríamos, nós não nos colocaríamos contra, como fizeram. Iríamos todos para as ruas e praças a reivindicar por esta justa causa. Sim. Ouvi críticas… É fácil criticar. Mas precisa levar essa bandeira adiante. As pessoas precisam, e nos apoiam porque sabem que alguém luta pela causa deles, uma causa abandonada pelo governo há muitos anos. Depois, te repito o que já disse: o governo, no que diz respeito à rede consular, este governo do PD… enquanto os parlamentares eleitos no Brasil, onde o problema é mais grave em todo o mundo, votam a favor. Vai haver ‘fiducia’ terça-feira – E votar a favor do governo, este é o contra senso de fundo… não sabem, diante da evidência, que se não fôssemos nós, ignorariam os problemas. Porque a oposição somos nós. Nenhuma outra força política ocupa este espaço.

Como vê o fato de que no Brasil nenhum parlamentar se envolveu com a questão?

Nenhuma declaração a favor. Dizem que foi uma manifestação política. Mas alguém deveria convocar. Um Comites (Comitato degli Italiani all’Estero), uma associação consegue convocar uma manifestação de dimensões continentais da América Latina? Precisa ter, primeiro, a jurisdição; depois, também a força. Portanto, é um argumento que se responde por si.

Mas lhe acusam de estar agindo eleitoreiramente, tendo em vista as próximas eleições!

Olha, se isso resolver o problema, eu ficaria contente com o reconhecimento. Mas as próximas eleições acontecerão daqui um ano mais ou menos. Em vez de debater o problema de fundo, procura-se julgar quem faz. Mas, queiram ou não, nós colocamos o problema consular na ordem do dia. E aqueles que apoiam o governo, que lhe votam a confiança, poderiam dizer: ou muda isto ou nós não te apoiamos mais! Isto é, é preciso ter coragem. Se não há aquela coragem, agem como rebanho de cordeirinhos, como soldadinhos de partido.

Percebeu alguma reação do governo, dos consulados?

Os cônsules (o de Buenos Aires e o de Porto Alegre desceram à rua para conversar com os manifestantes) devem ter ficado contentes. Porque nós estamos trabalhando também em favor deles. Porque reivindicamos que aumentem os recursos para os funcionários contratados. Com aqueles 30% não se garante nada. Assim, os cônsules, no fundo, nos dão razão. Espero que eles encaminhem o nosso documento aos embaixadores, e que os embaixadores os encaminhem ao Ministro. Nós, nas próximas semanas, os levaremos em mãos. Agora tomamos consciência de que o problema existe e é geral e – repito – o país com os mais sérios problemas é o Brasil. Por isso, quando alguém elege um representante, precisa saber se ele é capaz de ver as coisas como, realmente, são; a nacionalidade dele é uma coisa secundária.

O Brasil, ao que se evidencia, teria sido o País onde o índice de participação foi menor. Isso lhe preocupa?

Não, porque, antes de mais nada, é preciso ver que houve uma grande movimentação nas redes sociais. Comparecer não é tudo, principalmente num dia de chuva, dia de trabalho. Nas redes sociais foram muitas as manifestações e ficou evidente delas que houve a percepção de que há alguém que está fazendo alguma coisa, que levanta a voz, que faz ver que não se vive num país das maravilhas. No Uruguai fecharam um consulado e ninguém diz nada? Na Venezuela, uma vergonha: com a situação que os venezuelanos estão vivendo, continuar a cobrar 300 euros de taxa? É preciso suspender essa cobrança imediatamente. Ali um salário valem 10 euros! Não se pode pedir 30 salários para uma cidadania!

Há uma lei que obriga a devolver pelo menos 30%… era para ser desde janeiro, mas já estamos quase no meio do ano!

É uma lei que até aqui não vingou. Eu perdi a confiança neste governo. Me dá um pouco de pena e tristeza. Sobretudo o fato de existirem os que se elegeram aqui no exterior e apoiam este tipo de política. Porque, repito, quando alguém vota a confiança no governo, significa que apoia o governo e o confirma para ele continuar avante com todas as suas políticas. Entre elas, as políticas para os italianos no mundo; as políticas para a rede consular. Então é uma vergonha. Estamos há dez anos no Parlamento – e eu nunca fiz parte do governo – mas os que fazem parte do governo que lá está há mais de quatro anos precisariam reagir. Se eu faço parte de um governo, quero que, pelo menos, aprove leis; leis, e não ordens do dia que a nada servem; leis… e não há nenhuma proposta de lei aprovada por iniciativa dos parlamentares da América Latina; nem mesmo por aqueles que fazem parte do governo. Então, para que permanecermos no Parlamento? Eu prefiro fazer o que estamos fazendo. Ao menos damos mais visibilidade ao problema e chamamos a atenção do governo.

Quais serão os próximos passos do Maie sobre esse problema?

Agora continuaremos a batalha no Parlamento. E depois veremos, na segunda metade do ano, de realizar outras manifestações. Estamos estudando também a questão jurídica. O problema é como levá-la às pessoas. Uma coisa é alguém tomar uma iniciativa pessoalmente; outra é realizar alguma coisa coletiva. É uma questão que estamos estudando como resolver. Nossa intenção é fazer todo o possível para mudar a situação. Se o governo toma alguma decisão favorável, nós haveremos de aplaudí-lo. Mas vocês no Brasil, vejam bem, a rede consular está destruída…

O Maie continuará batendo nesses problemas, ou pára por aqui?

Vamos parar quando resolverem o problema. Ou que, pelo menos, melhorem um pouco, que demonstrem uma reação positiva do governo. Eu repito: somos 18 eleitos no exterior e 14 deles votam sistematicamente a favor do governo. Nós, no começo do governo Renzi, demos um crédito e votamos a favor. Porém, passado pouco mais de um mês, percebemos que tipo de política fazia e então dissemos “não!”. Se vais à Itália como uma ovelhinha, com um carimbo nas costas, a dizer tudo o que mandam ou pedem… O Maie não faz isso.

Tornando ao tema: ficou muito contente com Buenos Aires, não?

Em Buenos aires foi um belo dia! Muita gente. Também em Loma di Samora, Córdoba, Rosário onde compareceram pessoas que moram há 150 quilômetros… e depois aqueles lugares onde nós fizemos a proposta, como Maracaibo, mas quem organizou foi o Comites.

Ao contrário do Brasil, onde nenhum Comites assumiu a dianteira…

Evidentemente, porque talvez não representam o sentimento dos ítalo-brasileiros que estão sofrendo com os serviços consulares. Vejamos agora. Isso talvez pelo menos pode servir para alguma reflexão, algum teste, também para os representantes dos Comites e do CGIE (Consiglio Generale degli Italiani all’Estero). Impossível que não se debrucem sobre este problema; é impossível que não digam nada sobre isso, preferindo criticar quem faz ou deixa de fazer. O problema são as filas e a situação da rede consular, não quem puxou essa manifestação. Sim. Podem até criticar, não há problemas. Mas agora precisamos trabalhar. E o único modo de trabalhar é nos colocarmos juntos é dizer ao governo: ou faz isso ou não daremos mais nosso voto de confiança. Em Roma não existe outra forma de fazer. Agora, quando findar a presente legislatura, aqueles que tiveram oportunidade de governar, deverão explicar o que fizeram com a rede consular, com as filas.

Também com os 300 euros!

Também com os 300 euros. A coisa mais paradoxal é essa: o governo do PD foi o que mais destruiu a rede consular e ainda colocou essa taxa dos 300 euros! É ridículo. É como hoje pedir uma taxa para a limpeza do lugar e amanhã, depois da taxa cobrada, o ambiente estar mais sujo ainda. É ridículo; e mais ridículo ainda é continuar votando a favor.

Que mais o impressionou ou emocionou com essa manifestação?

A primeira coisa foi a participação de um continente inteiro. Pensar que, no mesmo dia, em todos os países da América Latina existiam pessoas que estavam reivindicando as mesmas coisas. Certo, nem todos estavam de acordo. Os críticos… É melhor que nos critiquem, mas não conseguem dizer nada sobre os motivos de nossa ação. Depois, em Buenos Aires, foi emocionante. Foi a primeira vez que fizemos uma manifestação diante do consulado, em plena via pública cantamos o hino italiano. Foi emocionante, sobretudo por ver as pessoas cansadas de não encontrar resposta se manifestando. Não perdemos. Estamos em três – dois deputados e um senador. Por isso, com a construção que estamos fazendo na América do Norte, na Europa e na Austrália, queremos agora aumentar o número de parlamentares eleitos no exterior para continuar essa luta.

Para mudar esse número 4 X 14?

Na próxima legislatura o Maie, segundo penso, terá uma quantidade maior de parlamentares, não apenas na América do Sul. Portanto, as coisas poderão mudar. Porque, independentemente de quem governa, se faz as coisas bem feitas para os italianos no exterior terá nosso apoio. Se houver uma política para os italianos no exterior, para a promoção da língua e da área cultura, para a melhoria da rede consular; para a assistência; se abrirem as sedes fechadas… se se perceber um esforço do governo… mas se o governo não nos dá atenção, se o subsecretário para os Italianos no Exterior é um romano e eles têm nove eleitos no exterior, é ridículo. Não sei o que podem dizer… Por que não colocaram ali um eleito no exterior, com um pouco mais de sensibilidade e conhecimento de nossos problemas? O subsecretário atual o conheço bem, é uma pessoa honesta, bem intencionada. Mas é um romano!

Desde ontem, a mensagem então é outra?

Desde ontem o tema está na agenda política. Não poderão mais ignorá-la e ficar calados, entendeu? Era uma coisa sobre a qual não se falava e eram os principais problemas de todo o mundo, mas sobretudo da América Latina. E agora deverão nos dizer alguma coisa. Além de nos criticar, quando terminarem de nos criticar porque fizemos isso, ficarão os problemas reais: dos que não são recebidos nos consulados; das filas da cidadania; da impossibilidade de obter o passaporte. Desde ontem colocamos esses temas na agenda política. Então para alguma coisa já serviu. Qual será a resposta? Diante da impotência, a crítica a quem organiza. Que importância tem isso? O importante é mudar o estado das coisas. Quando sumirem as filas etc., isso desaparece por si e não fará mais sentido qualquer manifestação.

Inicialmente falou que, se os problemas persistirem, poderão ocorrer novas manifestações ainda este ano, confere?

É possível. Decidiremos juntos, no Maie. E depois falaremos também com os Comites, com o CGIE e associações. Mas não queremos uma “task force”. Queremos uma coisa definitiva (…). Existe uma lei. Se tiverem coragem, que a mudem. Se não a mudam, que a façam cumprir. Eu teria dificuldade de votar num governo que fez tudo isso, que nada fez pela América do Sul. Eu continuarei a batalha, que, para nós, que nascemos no associativismo, é uma batalha dos ítalo descendentes, dos quais sempre me senti vizinho. Eu vivo no exterior. Meus filhos estudam no exterior. Tenho minha casa no exterior. Minha família está no exterior. Eu tenho girado e encontrado as pessoas. E este é um problema geral, mais principalmente da América Latina, do Brasil, da Venezuela, da Argentina… Na República Dominicana fecharam uma embaixada. Por isso, não votamos num governo que destrói a rede consular. A esmola dos 30% é totalmente insuficiente. Se os 300 euros fossem devolvidos aos consulados, poderíamos melhorar os consulados. Mas o dinheiro vai para Roma. Comiam tudo. Agora querem continuar comendo 70%. Este governo taxa e não presta serviços. Não dá para entender. E não dá para entender como representantes eleitos no exterior podem apoiá-lo. Uma coisa incrível. É preciso dizer ao governo: eu te apoio se estiveres próximo do povo. Este é, segundo penso, um dever de um parlamentar. Não podemos exercer nosso mandato como se morássemos na Itália. Precisamos estar próximos de nossos representados. Se o governo se distancia, vira as costas… quando lá estava Berlusconi, criticavam Berlusconi; agora, que as coisas pioraram, defendem o governo que só fez piorar situação. Mudaram. Mas por quê? Nós, a Berlusconi, dissemos não. E dizemos não também hoje. Porque queremos que as coisas melhorem para os italianos no exterior.