Porta explica porque entrou no lugar de Longo. E não se considera traído pelo governo na questão das verbas consulares

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Campanha de Longo como Senador já estava há tempos no ar quando houve a mudança. (Fotomontagem sobre fotos do perfil FB dos candidatos)

Fausto Longo tem “um trabalho mais ligado ao Estado de São Paulo e ao resto do Brasil” e, “seguindo uma lógica de fortalecimento” da bancada dos eleitos no exterior naquele ramo do Parlamento”, o partido “entendeu correto dar-me a oportunidade de prosseguir esse compromisso no Senado”. Assim o ex-deputado Fabio Porta explica a Insieme a inversão das candidaturas – ele ao Senado, e Longo à Câmara -, já em plena campanha.

A resposta de Fabio (PD), agora em campanha pelo Senado em toda a América do Sul, veio no bojo de uma entrevista exclusiva que ele concedeu ao editor da Revista Insieme, em que fala dos principais temas do momento. Sobre a alteração de papéis, o ex-parlamentar fora imediatamente interpelado, mas não respondeu. Também Longo preferiu o silêncio.

Perguntado se ele não se sente traído pelo governo que apoiou durante todo o tempo, com suas reiteradamente anunciadas remessas dos recursos oriundos tá “taxa da cidadania” para os consulados, Porta garante que não. “Sei – repete Porta – que nossos consulados este ano terão recursos suficientes para a contratação de pessoal, comprar equipamentos e tornar os serviços consulares dignos desse nome e adequados à dimensão de nossa grande comunidade”.

O candidato, que durante anos ocupou a presidência do Comitê para os Italianos no Mundo e Promoção do Sistema da Câmara dos Deputados italiana, também analisa a atual campanha eleitoral. “Observo com uma certa tristeza – diz ele – que a tendência à dispersão e à corrida pelas candidaturas mais por vaidade pessoal que por um real projeto politico prevalecem sobre o trabalho sério que esse desafio mereceria”.

Porta se refere diretamente ao Maie – ‘Movimento Associativo Italiani all’Estero’, à “Civica Popolare” a qual aderiu Renata Bueno, e às coligações “Liberi e Uguali” e ‘+Europa con Emma Bonino’. ”PD é o único que tem um projeto para os itálicos”, assegura Porta. Confira a entrevista exclusiva concedida pelo candidato Fabio Porta a Insieme:

Sua campanha já estava em curso para Deputado. De improviso, virou para Senador. Que o fez mudar de rota? Apenas uma tática eleitoral?

A composição das listas [chapas] eleitorais é um exercício complexo, que deve levar em conta avaliações políticas e uma estratégia abrangente ligada também ao perfil dos candidatos. Depois de dois mandatos na Câmara, meu partido entendeu correto dar-me a oportunidade de prosseguir esse compromisso no Senado, seguindo uma lógica de fortalecimento naquele ramo do Parlamento da bancada dos eleitos no exterior. Essa decisão foi tomada de comum acordo com o senador Longo e o Partido Socialista, considerando também nossos diferentes papéis e perfis políticos: a minha liderança já é reconhecida em toda a América do Sul e é natural que o candidato ao Senado tenha tal projeção, enquanto Fausto Longo tem, sem dúvida, um trabalho mais ligado ao Estado de São Paulo e ao resto do Brasil. Uma estratégia vencedora, portanto, para o fortalecimento de nossas listas [chapas] tanto ao Senado quanto à Câmara.

Visto que é a Câmara o principal, digamos assim, teatro (a ponto de seu partido ter defendido a ‘extinção’ do Senado), o que perdem ou ganham os italo sulamericanos com Porta no Senado?

Desde 2006, quando a sorte do governo Prodi dependia do equilíbrio de fornças no Senado, o papel da assim chamada “Câmara Alta” tornou-se decisivo, se não maior que da “Câmara Baixa”; na Itália, como se sabe, não existe uma real distinção de papéis entre as duas Câmaras, pois o nosso é um sistema “bicameral perfeito”. Hoje, os políticos italianos estão equitativamente distribuídos entre Câmara e Senado e a opção por uma das duas Câmaras é ditada por avaliações as mais diversas. Uma delas diz respeito exatamente aos italianos no exterior; nos anos passados, a esquadra de deputados do PD trabalhou muito bem e em sintonia entre nós e com o partido, enquanto no Senado (especialmente em função das posições do presidente do Comitê dos Italianos no Exterior, Micheloni), enfrentamos alguns problemas. Agora queremos reequilibrar essa situação e acredito que os ítalo-sulamericanos terão no “Palazzo Madama” um paladino de seus direitos e de suas conquistas.

Já enfrentou diversas campanhas… mas como analisa (e compara) a atual campanha eleitoral no Brasil e na América do Sul? O papel das redes sociais contribui para o enriquecimento do debate e ilustração do eleitor, ou produz efeitos contrários?

Observo com uma certa tristeza que a tendência à dispersão e à corrida pelas candidaturas mais por vaidade pessoal que por um real projeto politico prevalecem sobre o trabalho sério que esse desafio mereceria. Faço essa leitura sobre a decisão do Meie de Ricardo Merlo ao criar um novo partido apenas para reforçar sua chapa ao Senado, a inscrição no exterior da lista de esquerda “Liberi e Uguali” e aquela dos dois partidos aliados ao Partido Democrático (Civica [Popolare] “Lorenzin” e [Più] Europa “Bonino”), que arriscam apenas contribuir para o enfraquecimento do único partido de centro-esquerda em condições de oferecer à Itália e aos Italianos no mundo uma perspectiva de solução de seus problemas. As redes sociais têm, sem dúvida, um papel positivo, muito importante nesta campanha, mesmo se às vezes não contribuem para um confronto sério e aprofundamento dos temas centrais da campanha eleitoral, mas [deixam-se levar por] polêmicas estéreis entre os usuários da rede.

Com sua experiência parlamentar e conhecimento sobre Governo, Parlamento e Comunidade, que análise faz, no geral, das múltiplas propostas e promessas que circulam nesta campanha? Quais as que mais lhe chamam atenção?

Estou impressionado com as tantas promessas desses movimentos que depois de doze anos de presença no Parlamento continuam a iludir os eleitores sobre a importância de dar crédito a partidos políticos locais que em Roma não terão alguma influência sobre decisões do Governo e do Parlamento; igualmente me impressionaram aqueles candidatos que a cada eleição se apresentam por um partido diferente, como se a política fosse um jogo e não um compromisso coerente e responsável. Digo sempre a nossos eleitores que estamos votando para o futuro da Itália e não para escolher quem administrará nosso condomínio ou nossa associação. Isto quer dizer prestar atenção às propostas que dizem respeito a nossos compatriotas que vivem no exterior mas também ao projeto individual de cada partido político.  O PD, por exemplo, é o único partido de verdade pró-Europa, enquanto a centro-direita de Berlusconi-Salvini e o Movimento 5 Estrelas apoiaram, no passado, propostas de saída do Euro e mesmo da União Europeia. Também a preocupação com os italianos no mundo não é a mesma entre todos os partidos, e o PD é o único que tem um projeto para os itálicos.

Algumas formações organizadas para estas eleições, fizeram de cidadãos residentes na Itália candidatos na Circunscrição Eleitoral do Exterior. Isso é consequência de emendas defendidas e aprovadas pelo PD. Como vê isso agora, na prática?

A emenda à lei eleitoral que permite aos residentes na Itália candidatar-se no exterior não foi apresentada nem defendido pelo PD. Ao contrário, meu partido conseguiu modificar a versão original da emenda (apresentada por um partido de centro do qual hoje faz parte a ex-deputada [Renata] Bueno, que previa a possibilidade de um candidato concorrer simultaneamente na Itália e no exterior, até mesmo em mais colégios [eleitorais]. Não apenas isso: o PD declarou imediatamente que não concorda com o espírito dessa emenda e que não inscreveria na Circunscrição Eleitoral do Exterior nenhum residente na Itália. E mantivemos a palavra.

Sua ‘criatura’, a taxa da cidadania para financiar os consulados, recebe intenso bombardeio de diversas frentes nesta campanha. Enquanto isso, os recursos prometidos e reiteradamente anunciados tardam a chegar. Considera-se traído pelas circunstâncias, ou ainda acredita na “revolução cultural”?

A transferência dos recursos para eliminar as filas da cidadania e melhorar os serviços consulares já está acontecendo; os procedimentos foram retardados devido à convocação das eleições que obrigaram, obviamente, o Ministério das Relações Exteriores a priorizar a transferência de fundos para a organização das eleições. Não me sinto traido porque sei que nossos consulados este ano terão recursos suficientes para a contratação de pessoal, comprar equipamentos e tornar os serviços consulares dignos desse nome e adequados à dimensão de nossa grande comunidade. Falo de 4 milhões de euros agora e outros tantos até o fim do ano: um volume enorme e suficiente para enfrentar e resolver um problema que ninguém até aqui tinha conseguido administrar. É o início daquela ‘revolução cultural’ sobre a qual tanto falei há anos exatamente na revista Insieme; a ‘revolução’ consiste na introdução, pela primeira vez na história dos italianos no exterior, do princípio segundo o qual a arrecadação dos consulados podem ser transferidos aos próprios consulados e, sobretudo, destinados a fornecer respostas concretas e eficientes aos problemas e às exigências da comunidade dos italianos e dos ítalo-descendentes. Quem advoga o contrário, ou tem má-fé, ou está pouco informado. As coisas estão assim, como eu digo: a política dos fatos e dos resultados contra aquela [política] das palavras e das polêmicas.

Além das filas da cidadania, temos agora também as filas dos passaportes. E estas decepcionam cidadãos já reconhecidos, eleitores… Além do peso que isso possa ter na eleição, o que, de fato, está falhando na política externa do governo italiano?

É óbvio que o aumento do número de cidadãos reconhecidos tem influência sobre todos os outros serviços anagráficos, a partir da entrega dos passaportes. Um motivo a mais para prosseguir no caminho da transferência aos consulados desses recursos. Uma coisa, porém, quero claramente dizer: até quando estivermos falando apenas do problema das longas filas ou da entrega dos passaportes sem nos preocuparmos de todos os outros aspectos da cidadania (língua, informação, participação) não teremos resolvido nada, e a ‘revolução cultural’ não terá atingido o seu objetivo. Nossa obrigação é, sim, aquele de pedir ao governo melhores serviços consulares, mas deve também ser aquele de emprestar valor e substância ao conceito de cidadania, que em caso algum pode ficar limitada à entrega de um documento de viagem. E digo isso tanto em defessa da Itália, que somente teria a ganhar, em todos os aspectos, com a aquisição de novos cidadãos que deveriam ter o orgulho e a responsabilidade por fazer parte ativa e integrante de uma grande comunidade e de um País que continua a ser referência mundial pela sua cultura e pela sua história milenar.

Acredita na vitória do PD e como analisa a possibilidade, até aqui indicada pelas pesquisas, de um beco sem saída, isto é, de ninguém atingir uma maioria? Que saída imagina: coalisão, novas eleições, “governo técnico”…

Falta quase um mês para as eleições na Itália; as eleições dos últimos anos nos ensinam que exatamente nas últimas duas semanas os prognósticos e sondagens podem ser completamente modificadas pelo comportamento dos eleitores. Estou convencido que o PD recuperará consensos exatamente nessas últimas semanas, firmando-se na Itália e no mundo como o primeiro partido e facilitando assim a possibilidade de formar um novo governo graças à liderança demonstrada nesses anos pelos seus homens, Enrico Letta, Matteo Renzi e Paolo Gentiloni. Voltar a votar, num sistema tripolar e com uma lei eleitoral que não permite ao vencedor obter uma maioria absoluta, não ajudaria muito a não ser repetir o resultado da última votação.

Outras considerações?

Gostaria de concluir convidando os leitores de Insieme, sempre atentos às questões relativas à cidadania, a meditar sobre o principal direito-dever dessa cidadania: o exercício do voto. E a pensar que em jogo não está apenas a solução do embora mais importante problema da “fila”, mas o futuro da Itália e com isso aquele da política italiana para os “itálicos” no mundo, que são mais de 250 milhões e que estão integrados ao tecido econômico e social de nosso País com projetos de grande envergadura, e não simplesmente com soluções a questões apenas de ordem burocrática e administrativa. Nesses anos tenho demonstrado, graças a meu partido, que sobre todas as questões de interesse de nossa comunidade (língua, comércio, informação, participação…) conseguimos inverter a tendência dos cortes e dos silêncios dos governos de Berlusconi e da centro-direita; estou seguro que os italianos lembrarão disso na hora do voto.