A demagogia na política para os italianos no exterior

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Daniel Taddone é sociólogo e presidente do Comites do Recife. (Foto Desiderio Peron / Revista Insieme)

Quero dividir com vocês minha indignação com o discurso do senador Francesco Giacobbe (Partito Democratico, PD) feito ontem no Senado italiano em ocasião da aprovação do famigerado “Decreto Salvini” ou “DL Sicurezza”.

Primeiro, quero deixar claro que considero o “Decreto Salvini” um grande erro, sobretudo por modificar normas que envolvem a cidadania de uma forma irresponsável e leviana.

Todavia, ao ver membros da nossa comunidade aplaudir o discurso do sen. Giacobbe não posso me abster de comentar.

Começo relembrando que o senador Francesco Giacobbe, membro do PD eleito pelos italianos residentes na Europa, é senador desde 2013, tendo integrado a maioria parlamentar de fevereiro de 2013 a março deste ano. Portanto, o senador esteve CINCO ANOS na maioria parlamentar que deu sustentação ao governo do PD.

Ao apagar das luzes da legislatura passada, em novembro de 2017 o sen. Giacobbe, junto a outros três parlamentares do PD e o ex-senador de triste memória Aldo Di Biagio, propôs uma sorrateira emenda à Lei de Orçamento que simplesmente dinamitava o direito à cidadania dos descendentes de italianos a partir da segunda geração. Além de constitucionalmente ilegítima, tal emenda era um tapa na cara na comunidade italiana da América do Sul.

A emenda não foi aprovada, mas a intenção deles era clara. O senador Francesco Giaccobe é um inimigo dos descendentes de italiano de segunda, terceira, quarta (…) geração. Ele nunca se retratou ou retrocedeu daquele malfeito.

Muito bem. Ontem, o senador Giacobbe fez um discurso com um altíssimo grau de demagogia e cinismo sobre o “Decreto Salvini”.

Primeiro, Giacobbe faz uma comparação absurda entre a diáspora italiana com a imigração ilegal que a Itália enfrenta nos últimos anos. Ninguém que seja minimamente humano pode deixar de se compadecer dos refugiados e também daqueles que querem fugir da pobreza e dos conflitos na África e na Ásia. Todavia, a Itália não tem a menor condição de absorver todos aqueles que gostariam de escapar dessas tristes condições.

Os nossos antepassados emigraram para países que estavam sedentos de braços para o trabalho e que os acolhiam legalmente. Nossos “antenati” enfrentaram condições de trabalho degradantes e nada exigiam dos países em que se estabeleciam. Era trabalho de sol a sol, plantando hoje para comer amanhã. É uma situação absolutamente incomparável com a massa de imigrantes que entra de forma ilegal na Itália nos últimos anos.

Nossos representantes jamais deveriam fazer essa comparação absurda, que é ofensiva à memória dos nossos antepassados.

Se isto não bastante, a parte mais cínica do discurso do senador Giacobbe foi sobre o reaquisição da cidadania dos italianos que a perderam após se naturalizarem estrangeiros antes de 1992. Ele joga toda a culpa no governo atual (há oito meses no poder), usando um discurso emotivo de que esses italianos que perderam a cidadania, hoje idosos, não poderão morrer italianos.

Eu pergunto: onde estava o sen. Giacobbe e o seu partido que governaram a Itália durante cinco anos em maioria suficiente para aprovar uma lei que resolvesse a questão do “riacquisto di cittadinanza”? Quão cínico tem de ser um político para jogar a culpa no governo atual que está há apenas oito meses no poder de um problema que em cinco anos eles não foram capazes de resolver? Não só não foram capazes como nem mesmo nem tentaram resolver!

Enfim, espero que os representantes da comunidade tenham um pouco mais de cautela ao aplaudir discursos demagógicos de quem não tem a mínima condição de jogar as suas próprias culpas nos outros.