Além dos estereótipos culturais

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Para executar a importante tarefa que Desiderio me deu, de escrever nestas páginas algo interessante para os muitos leitores da comunidade italiana e amigos do nosso país, quero tentar provocar uma discussão sobre assuntos, a meu ver, relevantes. Espero ter respostas e que a discussão comece. E, sendo que me ocupo de cultura, é mesmo com este assunto que quero começar. Por que falar de cultura?

Quando a gente fala de cultura nos referimos a tudo o que contribui para a formação de um individuo no plano intelectual e moral e à aquisição da consciência do papel que ele tem na sociedade. Formação que fica evidente no complexo das manifestações da vida material, social e espiritual de um povo ou de um grupo étnico, em relação às diferentes fases de um processo evolutivo ou aos diferentes períodos históricos ou às condições ambientais. Em outras palavras, falar de cultura significa referir-se a um ambiente, uma história e a um grupo de pessoas que vivem neste ambiente e esta história e que, através de tudo isso, se formam no plano intelectual e moral.

Fazer cultura, então, acaba sendo uma responsabilidade, pois assume o sentido de “instrumento de formação”. Que cada grupo tenha a “sua cultura” é evidente; tem percurso histórico diferente e vive em ambiente diferente.

Mas, qual “cultura” representa um povo? Em resposta a esta pergunta (e nas respostas possíveis) entram muitos “estereótipos”, ou seja, conceitos comuns que resumem, em poucos elementos, significados bem maiores e complexos. Nós, italianos, somos representados no mundo através pizza, espaguetes, ‘o sole mio’. Os brasileiros, para nós, italianos, são samba, carnaval e futebol ou ‘cálcio’, como se fala na Itália. Mas isso é muito, muito limitante. E toda a “outra cultura”?

Onde estão Modigliani, Pavese, Leonardo – falando de Itália; ou Machado de Assis, Tom Jobim, Manoel de Barros – falando de Brasil? Só para citar alguns nomes importantes, sem considerar muitos outros “criadores e difusores de cultura” chamados “menores” e que, na realidade, fazem “viver realmente” a cultura de um país numa ação cotidiana, constante e a partir da base. Desde que vivo no Brasil, uma das coisas mais difíceis para se viver em âmbito cultural é este “estereotipo” de representação da cultura. Que a grande mídia da comunicação use principalmente estes estereótipos é evidente (só olhar alguma novela bonita), pois procuram principalmente ‘audience’, mas nós, italianos no exterior, acho que deveríamos ter interesse em falar “da verdadeira cultura” do nosso país, das muitas manifestações de cultura que formaram e formam o nosso povo no aspecto intelectual e moral, e da evolução cultural que continuamente transforma e cria novas “culturas” em nosso país.

Eu gosto de ‘Tarantella’, polenta, árias de ópera, considero tudo isso uma parte importante da minha cultura, mas não é só isso. É possível que não se conheça Ruzante? Que não se comemore a Jornada Mundial da Comédia da Arte? Que não se conheça Gozzi? E, mais perto dos dias de hoje, que pouco se conheça sobre Pirandello e Eduardo? Que se conheça Bocelli e não se conheça Gaber?

Desde que faço meu trabalho de artista no Brasil, vivo continuamente a “depressão” de ver a minha cultura reduzida em mínimos termos. E todo o esforço para ampliar o conhecimento e a informação sobre a cultura italiana, através de aquele processo simbiótico do qual eu falava no artigo do número anterior da Revista (ano XXV n. 240), não encontra ajudas entre aqueles “italianos no exterior”, simples cidadãos ou empreendedores ou representantes de instituições, que muito poderiam contribuir (ou pelo menos participar). Todas minhas ultimas produções são ligadas à cultura italiana a partir de Plauto (“A Comédia da panela”), passando por Pirandello, criando com o amigo Sangiorgi uma opereta cheia de referências italiana: “Janaína não seja boba”; para terminar, no mês passado (abril), com um anônimo do Vêneto de 1500, colocando em cena “A Venexiana”.

Alguns representantes das instituições italianas ou do empreendedorismo italiano demonstrou interesse? Ninguém.