Merlo nega restrição geracional na cidadania italiana; uso do WhatsApp em São Paulo é parte de plano para acabar com “máfias do agendamento”

524
O senador ítalo-argentino Ricardo Merlo em entrevista ao jornal "Clarin" (Foto de Victor Sokowicz)

“Te asseguro que não”. Assim, secamente, o subsecretário para os italianos no mundo do Ministério das Relações Exteriores e Cooperação Internacional da Itália, senador Ricardo Merlo, respondeu ao ser questionado por Insieme neste domingo se é favorável à imposição de limites geracionais na lei que regula a transmissão da cidadania italiana por direito de sangue.

“Atualizar não é limitar, nem restringir”, justificou Merlo, acrescentando: “Se eu não tivesse agido, juntamente com Lorenzato [o deputado Luis Roberto Lorenzato) o ‘Decreto Segurança” [ ‘Decreto Salvini’] já teria limitado. Portanto, é claro que eu sou contra a limitação”.

O senador foi questionado por Insieme na sequência de uma entrevista publicada pelo jornal argentino “El Clarin” em que ele colocou a Itália ante o desafio de acabar com a “máfia dos agendamentos” para passaportes e reconhecimento da cidadania nos consulados italianos, fenômeno que atinge principalmente a América do Sul, com destaque para o Brasil.

Na entrevista a El Clarin, depois de falar sobre o volume de pedidos de reconhecimento da cidadania italiana por direito de sangue e da falta de pessoal nos consulados, Merlo defendeu a reforma da Lei da Cidadania italiana, definindo-a como “uma norma que não tem praticamente restrições”. “Não tem restrição geracional e existem as cidadanias por matrimônio”, disse ele, aduzindo que “temos que atualizar a lei para acabar, por exemplo, com a discriminação contra as mulheres, e especialmente a questão das mulheres que nasceram antes de 1948 e, por sua vez, tentar regular essa demanda de cidadania que é muito difícil de suprir como estamos vendo”.

Na entrevista, publicada sábado último, Ricardo Merlo falou que o sistema de vídeo-chamada por WhatsApp, que inicia a vigorar hoje em São Paulo, para o agendamento de passaportes, é parte de um plano para acabar com as “máfias do agendamento”. “Vamos – disse ele – implementar um sistema de video-chamada. Então, quem faz a gestão online para obter o turno deve fazê-lo com a sua imagem e não como agora, onde só aparece o nome. O novo sistema impediria essa invasão. Vamos experimentá-lo em São Paulo e, se funcionar, vamos estendê-lo às demais circunscrições, não a todas, mas às mais críticas”.

A demanda por cidadania e renovação de passaportes – disse ainda Ricardo Merlo – “é muito grande e quase infinita. Em Buenos Aires, a renovação é muito melhor, mas a questão da cidadania é realmente muito difícil. Não só alí, mas em outras cidades, e é difícil dar respostas rápidas e contínuas. Seria preciso um município, o número de funcionários em um município, para gerenciar essas coisas. Essa demanda cresce à medida que aumentam os problemas econômicos. Acontece agora justamente com a Argentina”.

Sobre os problemas com agendamento junto aos consulados, Merlo diz que onde isso acontece mais é no Brasil, em quase todas as circunscrições, enquanto que na Argentina isso ocorre em lugares mais críticos como Buenos Aires. “Do lado brasileiro – disse o subsecretário – os problemas estão concentrados em San Pablo, Curitiba e Porto Alegre. Este país é o mais complicado porque há milhões de descendentes que querem ser cidadãos italianos e é impossível suprir uma demanda tão grande”.

Segundo Insieme apurou, Merlo estará no Brasil no início de dezembro para a inauguração da nova sede consular de Recife e, ao que consta, também para uma reunião convocada para acontecer no Rio de Janeiro com a participação de todo o “sistema Itália” no Brasil.