O italiano que está em você 208

A professora e historiadora Sandra Da Canal, descendente da família Bianchi de Bento Gonçalves, e Da Canal de Caxias do Sul, historia sua italianidade:
“A região do Alto Uruguai foi colonizada por alemães, caboclos, italianos, poloneses, negros…, a partir do início do século XX. A colônia Erechim foi fundada em 1908, sob o governo de Borges de Medeiros, com o objetivo de povoar a região norte do Estado, no momento em que a estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul propiciava amplo contato econômico com o centro do país. A região atraiu, a partir de 1920, migrantes vindos das Antigas Colônias da Serra, e imigrantes europeus diretos. As diferentes etnias chegadas à colônia tiveram de conviver, embora traços culturais distintos – língua, religiosidade, atividades, costumes, hábitos… A convivência comunitária, as parcas atividades comerciais forjaram uma aproximação inicialmente retraída e cercada de tabus, mas que logo se constituiu na engrenagem de desenvolvimento social da região.

Observando a região em que vivo, sob a perspectiva histórica, sem ignorar os aspectos pessoais, sinto-me feliz em afirmar que meus ascendentes participaram ativamente desta combinação cultural, sem abandonar sua história, costumes e valores, comprovando que pessoas de diferentes etnias podem conviver em harmonia, sem precisar anular as próprias características. Vivencio com alegria minha italianidade, com o prazer de afirmar que, após 140 anos, continuam vivas as tradições dos animados imigrantes italianos.

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Remeto-me a uma herança especial dos gringos (taliani), como o típico falar alto com gestos de mãos; há quem diga que italiano sem as mãos não se comunica; o gosto por macarronadas, salames, queijos e polentas, devidamente acompanhados de um bicer de “vin” caseiro; enfim, a boa mesa e a boa comida.

Outra forma de identificar um italiano é pela indiscreta avareza! Gringo que não achar algo caro e não pedir um desconto é uma raridade quase impossível. Outro traço marcante do italiano é a dedicação ao trabalho, como honroso e digno do ser humano. Trabalho não apenas para enriquecer, mas como progresso e propiciar melhores condições de vida aos filhos.

A italianidade se constrói na família pela importância histórica que se dá aos conselhos dos nonos, dos pais, dos tios…

Fui criada ouvindo ditos em Talian, que fazem parte de minha memória existencial. Aliás, como são admiráveis as recordações dos nonos e nonas, lembrando suas trajetórias de vida, momentos especiais, dificuldades, a criação dos filhos, o trabalho e tantas histórias fantásticas de uma vida singela, mostrando que a felicidade está nas pequenas coisas e em Deus. Estou, como a maioria, valorizando a história dos antepassados, as festas em família, o parentesco, as lutas, dificuldades, alegrias e vitórias, depois de abandonar uma Itália de miséria e de fome, em grave crise política e econômica, para começar esta bela vida no Brasil distante.

Sou feliz em descender de corajosos imigrantes que desbravaram matas e construíram cidades, continuando uma saga de trabalho e progresso. Acima de tudo, me sinto brasileira, pois foi o Brasil que nos agraciou com a abundância do trigo, do milho e da uva, que nos acolheu de braços abertos, e permitiu que novos sonhos fossem semeados e que o fruto do trabalho permitisse a prosperidade material e espiritual dos descendentes”

Ser brasileiro-ítalo é próprio do direito de solo, aberto a todo direito de sangue. O Brasil é o solo universal de raças, etnias e culturas.