Pandemia empana primeiro ‘Dantedì’. Hoje iniciava, em 1300, a viagem de Alighieri ao inferno. Tudo acontece virtualmente

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Devido à pandemia do coronavírus, passa praticamente em brancas nuvens o primeiro “Dantedì” (Dia de Dante), depois que ele foi instituído, no início do ano, pelo Conselho de Ministros para a comemoração do 700º aniversário da morte do “supremo poeta”, que ocorre ano que vem. Tanto no Brasil, quanto na Itália e em outros países, os eventos culturais e sociais que haviam sido anunciados, foram cancelados ou transferidos e transformados em atividades virtuais, sem a ocorrência de público.

Na data hoje, no ano de 1300, iniciava – segundo entendem os estudiosos – a viagem de Dante Alighieri pelo inferno, o primeiro dos três livros (os outros são Purgatório e Paraíso) que compõem a “Divina Commedia”. A obra é considerada uma das principais peças da literatura mundial de todos os tempos, e base da língua italiana falada atualmente em todo o mundo.

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À verve do poeta, que morreu exilado fora de sua terra natal (Florença) por não se sujeitar ao pagamento de multa depois de decretada sua expulsão da cidade por questões políticas, junta-se hoje a imagem da violência com que a pandemia envolve a Itália – até aqui o principal país a sofrer as consequências da peste nascida na China e propagada pelo mundo inteiro.

“O poeta é o País”, disse o ministro para os Bens e Atividades Culturais da Itália, Dario Franceschini. Todos os canais de televisão da Itália e nos principais sites de cultura, incluindo do da “Accademia della Crusca” e – é claro – da “Società Dante Alighieri”, estão programadas leituras virtuais da obra do poeta durante o correr do dia de hoje. (No vídeo abaixo, o “Italscene” Roberto Innocente lê o primeiro cando do “Inferno”)

Em Curitiba, o Centro Cultural Ítalo-Brasileiro Dante Alighieri tinha programado uma noite de manifestações artísticas e culturais em sua sede, no centro da cidade. Entretanto, no site da Embaixada da Itália no Brasil, ou naqueles dos Consulados, com suas páginas de rosto tomadas com informações sobre o coronavírus, a data não é lembrada. Também o site do “Istituto Italiano di Cultura” de São Paulo não faz menção à data em sua primeira página, ainda com informações sobre o centenário de Fellini. Também o “Istituto Italiano di Cultura” do Rio de Janeiro não tinha chamada sobre a data até a publicação desta matéria.

“No dia 25 de março celebra-se o primeiro Dantedì – diz a mensagem de Franceschini – uma jornada que, em sua primeira edição, não poderá ser senão digital. As muitas iniciativas nascidas espontaneamente desde o primeiro anúncio da jornada, no dia 17 de janeiro, com a sua instituição por decisão governamental, assim como aquelas promovidas pelas instituições, foram desviadas para a Rede. Hoje, mais que nunca, é necessário recordar em toda a Itália e no mundo o gênio de Dante com uma leitura individual e ao mesmo tempo ampla de sua obra”, diz o ministro, acrescentando que “Dante lembra muitas coisas que nos mantém juntos: Dante é a unidade da Itália, Dante é a língua italiana, Dante é a própria ideia da Itália”.

No início da tarde (horário de Brasília), a Farnesina (Ministério das Relações Exteriores) divulgou nota sob o título “Il Dantedì della Farnesina” (O Dia de Dante da Farnesina) em que informa que “também a Farnesina participou da primeira edição do “Dantedì”, a jornada dedicada a Dante Alighieri, que segundo muitos estudiosos exatamente no dia 25 de março de 1300 teria iniciado sua vigem para além da terra, indo para a célebre “selva escura” do Canto do Inferno”.

E termina dizendo que “depois de 720 anos do início da viagem do ‘supremo poeta’, a Itália se reúne em torno de um de seus “pais” para dar início a um percurso de renascimento também através da cultura”. A nota, em italiano, tem o seguinte teor, na íntegra:

“Il Dantedì della Farnesina

Anche la Farnesina ha partecipato alla prima edizione del Dantedì, la giornata nazionale dedicata a Dante Alighieri, che secondo molti studiosi proprio il 25 marzo del 1300 avrebbe cominciato il suo viaggio ultraterreno, ritrovandosi nella celebre “selva oscura” del Canto I dell’Inferno.

Moltissime istituzioni culturali in Italia e gli Istituti Italiani di Cultura all’estero hanno messo a disposizione online contributi dedicati a Dante e hanno lanciato flashmob letterari, rendendo possibile una fruizione alternativa dell’opera del Sommo Poeta anche in questa fase di emergenza: in tutto il mondo siti web e social network sono così diventati veicoli di produzione e di diffusione della cultura italiana.

Nell’ambito della campagna #WeAreItaly, promossa in questi giorni dalla Farnesina, Dante Alighieri è stato celebrato con le letture dell’attrice Ermanna Montanari e del drammaturgo Marco Martinelli, che hanno dato voce alle vicende del Conte Ugolino e di Brunetto Latini, narrate nell’Inferno.

A 720 anni dall’inizio del viaggio del Sommo Poeta, l’Italia si raccoglie attorno ad uno dei suoi “padri”, per avviare un percorso di rinascita anche attraverso la cultura.