Possibilidade de novas eleições italianas em breve coloca de prontidão todos os candidatos. E alguns já estão em franca campanha

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E tudo recomeça “da capo”, como dizem as partituras musicais: com o rompimento do pacto Lega-MS5, que durante pouco mais de um ano sustentou o “governo da mudança”, a Itália volta a se dividir entre os que querem novas eleições imediatamente e os que, a pretexto de colocar freios ao avanço da tendência centro-direitista, procuram saídas alternativas, brecando as urnas. Os próximos dias serão decisivos, mas os atores da política, tanto na Itália quanto no resto do mundo, vivem dias intensos e agitados, com a retomada ou, simplesmente, o reaquecimento de suas campanhas.

No Brasil, a campanha já começou, se é que algum dia tenha parado. Na manhã deste sábado Insieme ouviu Luis Roberto Lorenzato, Fabio Porta, Walter Petruzziello, Pascoale Matafora, Luis Molossi, Thiago Roldi, entre outros, e mesmo os céticos em relação à possibilidade de eleições já em outubro, conforme a imprensa italiana conjectura, se dizem prontos para a batalha.

O deputado Luis Roberto Lorenzato, da Lega (o mesmo partido do ministro e vice-premier Matteo Salvini, que detonou o processo sucessório), disse laconicamente a Insieme que está em campo. “Nunca deixamos de fazer campanha para reeleição” – afirma ele, aduzindo que, “inclusive o Luiz Osvaldo Pastore está na Argentina”. O empresário Pastore foi candidato ao Senado na última eleição, sem obter o número necessário de votos à sua eleição. Lorenzato silenciou, entretanto, ao ser questionado sobre prazos e outros detalhes. Mais tarde, ele voltou a informar que “o Pastore é o candidato da Lega na América do Sul”e que “esperamos que a eleição seja em outubro”.

O ex-deputado Fabio Porta, embora tenha dúvidas sobre o processo, se diz pronto ao novo desafio: “Para saber se realmente teremos em outubro novas eleições – assegura Porta – devemos esperar uma ou duas semanas. A decisão, como sempre, cabe ao Presidente da Repubblica, depois de consulta com os partidos”. “Neste momento – prossegue Porta – me parece que existem duas tendências: uma para votar logo e outra para adiar as eleições (argumentos: aprovação da redução dos parlamentares ou nova lei orçamentária). Penso que a primeira opção prevalecerá, mas não vamos esquecer da tendência da maioria dos paramentares em continuar no cargo”.

Segundo o ex-deputado que ainda questiona os resultados da última eleição, e já em tom de campanha, “de qualquer maneira, temos que saudar positivamente a fim deste governo: um verdadeiro desastre para a Itália e para a Europa, além de ter sido sem dúvida o pior governo para os italo-brasileiros (é só perguntar àqueles que estão em fila nos consulados ou a quem está apresentando na Itália a própria documentação…). De qualquer maneira eu e o PD estaremos prontos para este novo desafio”.

Outro palpite tem Pascoale Matafora, funcionário da Embaixada da Itália em Brasília e que nas últimas eleições foi candidato a deputado: “Eu acho que não teremos eleições. Mattarella [Sergio Mattarella) não vai deixar a ambição do Salvini prevalecer. O Estado não pode se curvar aos delírios de poder”. Segundo ele, “a Itália já teve uma marcha sobre Roma e deu no que deu”, referindo-se ao período fascista. Entretanto, “se o PD me convocar para entrar em campo estarei pronto. Enquanto isso, continuo trabalhando como servidor do Estado com humildade e orgulho de estar prestando um serviço para a nossa Itália”.

Candidato nas últimas eleições e coordenador geral do Maie – ‘Movimento Associativo Italiani all’Estero’ no Brasil, o advogado Walter Petruzziello diz que “por ora” vai ficar “inerte”, mas confirma que já recebeu ligações do senador Ricardo Merlo e observou que Thiago Roldi, do Espírito Santo, já está em campanha. Roldi, por sua vez diz a Insieme que na segunda-feira próxima terá reunião de trabalho com o pessoal que o apoia para avaliar a situação.

“Fomos pegos de supetão na quinta-feira – conta Roldi – quando o Salvini colocou tudo pelos ares”. Diz ele que ligou imediatamente ao senador Ricardo Merlo perguntando: “Vamos fazer eleições?”. E Merlo lhe teria respondido que deve se preparar para as eleições que serão em breve, provavelmente em outubro. Ainda segundo Roldi, Salvini, que cresceu muito nos últimos tempos, poderá obter mais de 50% dos votos ao se juntar com outros partidos como Forza Italia e Fratelli d’Italia.

Não se pronunciou nesta manhã o advogado Luis Molossi, vice-coordenador sul-americano do Maie e – como ele diz – primeiro não eleito nas últimas eleições para a Câmara dos Deputados, mas por outras fontes Insieme apurou que sua disposição continua “inabalável” de concorrer, estando já há algum tempo articulando sua campanha.

Também a ex-deputada Renata Bueno não retornou a consulta de Insieme. Segundo algumas fontes, ela, que já vinha articulando candidaturas ao Comites – ‘Comitato degli Italiani all’Estero’ do Paraná e Santa Catarina (em situação normal, os Comites seriam renovados no curso do próximo ano), nunca descartou a possibilidade de voltar a se candidatar ao Parlamento Italiano, já que se orgulha de ter sido a primeira ítalo-brasileira a lá chegar.

Também o sociólogo Daniel Taddone, presidente do Comites do Recife, e que disputou as últimas eleições, silenciou. Ao que consta, Taddone estaria muito mais interessado no momento em organizar um movimento em favor do fortalecimento dos Comites no Brasil. Há alguns dias, o jurista Walter Fanganiello Maierovitch, que também concorreu nas últimas eleições, dizia que “enquanto não for resolvido o problema das fraudes eleitorais, não colocarei o meu nome à disposição dos eleitores, até para não ser conivente”.

O senador Ricardo Merlo, que hoje integra o ‘governo da mudança’ como subsecretário da Farnesina paras os italianos no mundo, também não retornou. Mas o site “Italia Chiama Italia” que é uma espécie de porta-voz oficial do fundador e presidente do Maie, colocou ontem no ar um editorial em que explica “por que, segundo nós, graças à gestão do subsecretário Ricardo Merlo, aquele que está destinado a terminar rapidamente foi o melhor governo de todos os tempos para os italianos no mundo”.

“É questão de tempo – lê-se – mas haverá eleições. Parece improvável, segundo a grande maioria dos observadores, um governo técnico. Os italianos não querem mergulhar no passado recente e isto o sabe também o presidente da República, Sergio Mattarella, que com certeza avaliará isso no momento de decidir. Sim, porque é somente o chefe do Estado quem pode decidir se, como e quando vai dissolver o Parlamento e levar o País às eleições. Rumores falam de eleições em outono, previstas para a metade de outubro e metade de novembro”.

O editorial, assinado por Andrea Di Bella, diz que isso, para alguns, pode ser bom, mas, para outros, “é, sem dúvida, um pecado, segundo nós”, pois, “graças ao trabalho do subsecretário e senador Ricardo Merlo, este foi, sem dúvida alguma, o melhor governo de todos os tempos para os italianos no mundo”. Na sequência, enumera as principais ações desde que Merlo assumiu, traçando um comparativo com outros governos e de certa forma dando o tom da próxima campanha eleitoral.