Quando o teatro fala italiano

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10O tema da “Semana da língua Italiana” deste ano, 2019, será “O Teatro”. Que legal, até que enfim lembra-se que o teatro é uma parte importantíssima da Cultura Italiana e uma das formas artísticas que, mais que outras, usam as grandes possibilidades da nossa língua. O teatro italiano é antigo tanto quanto o teatro grego, foi capaz de criar estilos que conquistaram o mundo como a Comédia da Arte, está lotado de grandes autores como, só para falar de alguns, Plauto, Machiavel, Goldoni, Pirandello, Eduardo, Bordon.

Na Itália esta história e estes nomes se aprendem na escola, mas não todos da “cultura teatral” chegaram até o Brasil. A imigração italiana, que criou as grandes colônias de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, foi uma imigração de pessoas muito pobres em busca de um pedaço de terra, de um trabalho, de um futuro melhor (assim como meus pais que saíram da Calábria rumo o norte). Muitos sem instrução. Por isso do “mundo da cultura italiana” o reflexo brasileiro é direcionado principalmente às tradições populares, como danças folclóricas ou as festas ligadas a Santos ou produtos enogastronômicos. São aspectos muito importantes, mas constituem somente uma parte da nossa cultura. E se os rituais das festas populares são considerados os primórdios do teatro italiano (“As origens do Teatro Italiano” – P.Toschi – Ed. Feltrinelli), o desenvolvimento desta arte teve muitos protagonistas que deveriam ser conhecidos e divulgados como parte importante da nossa história cultural.

Alguns anos atrás, na manifestação “Mia Cara Curitiba” (edição 2013) foi apresentado um edital pela leitura/encenação de textos teatrais italianos e muitos resolveram traduzir textos inéditos no Brasil. Iniciativa muito boa que fez conhecer ao público de Curitiba muitos textos desconhecidos para os amigos brasileiros, mas que nunca mais foi repetida (triste destino de muitas coisas boas). Quem pode cumprir o papel de difusão da língua através da Cultura Teatral Italiana hoje no Brasil? Para responder esta pergunta, uma pequena premissa. No Brasil existem muitos artistas italianos que, como autores, diretores, atores se ocupam de teatro (assim como outros estão dedicados a outras artes). Traduzem, escrevem, produzem, apresentam. Eu sou um deles, e somente a título de exemplo, nos meus 13 anos de vida no Brasil traduzi 12 textos teatrais do italiano (seis dos quais nunca traduzidos no Brasil), escrevi nove textos autorais inspirados em dramaturgia italiana e produzido duas apostilas sobre teatro italiano, além de ter colocado tudo isso e mais algumas coisas em cena. E eu sou somente um dos muitos.

Nestes dias uma pesquisa independente quer realizar um “censo” dos “teatrantes” italianos no Brasil com a ideia de apresentá-la às autoridades italianas (Institutos de Cultura, Consulados) com a esperança que ajudem estes artistas para continuar a tarefa que eles mesmos escolheram: “difundir a cultura teatral italiana no Brasil”.

Desta premissa, imediata e logica é a resposta: “esta tarefa pode (e a meu ver tem de) ser absorvida para quem, italiano, se ocupa de teatro no Brasil”. Tão lógico, mas a logica nem sempre é amiga da realidade. Por que então as “instituições italianas no Brasil” não fazem nada nesta direção, ou pior, ignoram a existência sequer destas pessoas, destes artistas? Por que Institutos de Cultura e Consolados continuam usando o dinheiro público dos cidadãos italianos, ignorando quem, italiano, difunde “cotidianamente a cultura italiana” e a “cultura teatral”, em particular.

Com muita probabilidade, e espero estar errado, na próxima Semana da Língua Italiana, serão muitos os “Leitores” dos consulados a desenvolver palestras, oficinas e leituras; e muitos “teatrantes” italianos no Brasil, a ficar olhando e, continuando “sem nenhuma atenção por parte de quem representa o nosso país”, a desenvolver o papel de divulgar e fazer conhecer o teatro italiano no Brasil simplesmente para “crer” que a nossa cultura teatral, a nossa língua, seja importante e mereça ser apresentada aos amigos brasileiros.