Talian: Dal Castel pretende inovar à frente da Assodita. Próximo encontro será na cidade de Colombo-PR

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Será Colombo, na área metropolitana de Curitiba-PR, a sede do próximo encontro da Assodita – Associação dos Difusores do Talian, que desde o final de semana que passou está sob nova diretoria, encabeçada por Juvenal Dal Castel, residente em Porto Alegre. Ele foi eleito durante o “XXIII Encontro dei Difusori del Talian”, realizado em Nova Erechin, no Oeste catarinense. Na mesma oportunidade, a assembléia da Assodita aprovou seu novo estatuto.

“Recebo este cargo com a alegria natural de nossos encontros, mas também com o necessário senso de responsabilidade de conduzir de maneira democrática e criativa os trabalhos”, disse a insieme Dal Castel, em entrevista exclusiva. ”Pretendemos inovar, dando um maior espaço para os difusores apresentarem suas obras e ideias”, disse ainda o novo presidente, que tem um largo currículo de atividades na área da língua e da cultura talian.

A nova diretoria da Assodita está assim composta: Juvenal Jorge Dal Castel (presidente), Airton Darcy Deon (vice-presidente), Wilson Canzi e Noeli Alessi Soletti (secretários), Angelita Loreni Reolon e Vilmar Agostinho Guzzo (tesoureiros); Conselho Fiscal –
Efetivos: Idalino Mário Zanette, Nelson Mezzomo e Hilario Stefanello; Suplentes: Ricardo Ló, Judimar Luiz Filappi e Jaime Martelli. A seguir, a íntegra da entrevista com o presidente Dal Castel:

Como recebeu o encargo/eleição? – Ser investido dessa missão de conduzir e coordenar uma associação que tem uma dimensão nacional, primeiro de tudo é um enorme desafio principalmente para alguém que mais está acostumado à criatividade do que à administração. Há diversas dimensões a serem avaliadas, pois embora seja gratificante ser detentor da confiança e representar tantos associados, é ao mesmo tempo uma responsabilidade muito grande e diria, uma missão, porque implica mais desprendimento ainda do que aquele que já é necessário ter pelo simples fato de ser sócio.

A Assodita congrega e faz parte de um importante time de difusores do talian, que a duras penas conseguiu o título de Referência Cultural Brasileira em 2014, depois de mais de 20 longos anos de trabalho intenso e de ações importantes de salvaguarda. Recebo este cargo com a alegria natural de nossos encontros, mas também com o necessário senso de responsabilidade de conduzir de maneira democrática e criativa os trabalhos.

O que alivia o peso dessa responsabilidade é que o grupo que constitui a diretoria e o conselho fiscal são associados comprometidos, ativos e conscientes da importância da função de cada um. Creio que conseguiremos fazer um bom trabalho e corresponder à confiança em nós depositada.

Como pretende conduzir a Assodita? – O trabalho realizado até aqui é um importante espelho que irá balizar em grande parte nossas tomadas de decisões. Se dá pra dizer que isso é um conceito eu diria que é necessário um pouco de criatividade para conduzir uma associação. O diálogo direto com o associado, a proximidade, a horizontalidade das relações, a humildade a atenção às demandas e principalmente às sugestões dos associados constroem um ambiente democrático indispensável para o encaminhamento das ações de salvaguarda.

Dependemos da adesão e cooperação espontânea dos associados, e isso é impossível sem democracia. Não buscaremos o consenso, mas através do dissenso construir alternativas e caminhos viáveis. Para isso é necessário aprimorar ou utilizar de forma mais efetiva os meios de informação através dos canais de comunicação existentes no sentido de manter uma grande proximidade com o associado, mantendo atualizado e participante.

Prioridades e problemas pela frente? – Os encontros Nacionais dos Difusores do Talian são nossa grande prioridade, porque nele temos o nosso maior capital, o Capital Humano reunido. Pretendemos inovar dando um maior espaço para os difusores apresentarem suas obras e ideias. Estamos com a Assodita apta para participar de editais públicos federais, estaduais e municipais. Já fizemos isso, embora timidamente no ano passado com resultados bastante animadores. Pessoa dessa atual diretoria já conduziu a elaboração de alguns projetos. Estamos adquirindo experiência nesse campo e nos capacitando.

Temos planos para apresentar projetos para as leis de incentivo à cultura dos estados e também federal, bem como participar, onde é possível, em projetos municipais, além de dar suporte aos associados que precisem ou pretendam apresentar e desenvolver projetos culturais individuais.

O grande desafio, que não é exclusivo da Assodita, mas de todos os entes que pretendem transmitir esse saber e dar-lhe longevidade, é debatermos uma forma de atingirmos as crianças, seja através de programas de rádio, seja através da literatura, seja através da música, ou do teatro ou tentando invadir nossos espaços escolares para demonstrar a importância desse patrimônio que, ao mesmo tempo em que corre o risco de ser extinto por não ter sido transmitido às crianças, será através delas que se construirá a garantia de perpetuidade da língua talian.

Onde (e quando) vai ser o próximo encontro? – O próximo encontro será realizado em Colombo no PR. O Grupo de Colombo do Cevep – Centro de Estudos Vênetos esteve no encontro de Nova Erechim e é um grupo de jovens estudiosos, atuantes e principalmente alegres. O talian é uma língua de gente contente, por isso fala-se sorrindo. A região de Colombo é bastante representativa para o talian. Tem uma história importante a ser contada com suas peculiaridades e características próprias que diríamos, não são diferenças, mas elementos que precisamos buscar se aproximar deles para crescermos como cultura viva. Eles estão ligados à “Associassion Véneti nel Mondo”, que tem uma importante atuação na preservação das suas raízes culturais.

Essas diferenças são o principal elemento que nos atrai, pois a natural curiosidade humana nos projeta a conhecer a alteridade, e aquilo que parecia ser uma diferença na verdade é uma grande semelhança. E assim comungamos a magia de podermos nos entender com o colorido das variantes do nosso falar que precisamos dar-lhe um nome simples, Talian.

Colombo vai ser uma experiência maravilhosa, porque a proximidade dos catarinenses permitirá uma presença grande de difusores, e o pessoal do Rio Grande do sul e também do Oeste do Paraná ficará contagiado com essa importante oportunidade. A distância será insignificante. O talian atravessou os mares e nós precisamos ir onde o talian está.

A Assodita vive exclusivamente da contribuição de seus associados, ou tem algum outro tipo de ajuda? – A Assodita é uma entidade sem fins lucrativos. Não tem fins lucrativos mas nem de longe desejamos ter prejuízo ou andar sempre na linha vermelha. Seus dirigentes trabalham de forma filantrópica e seus associados bancam suas atividades de salvaguarda do patrimônio talian também com recursos próprios. Ainda assim, os associados são chamados a contribuir com uma quantia anual porque há despesas que são de praxe. Temos que manter a conta bancária, o contador, a atualização do Site e página na internet, o aplicativo, e outras despesas administrativas. Esse dinheiro arrecadado retorna de forma intangível ao associado transformado em atividades e ações que a Assodita promove.

Com a possibilidade agora de participarmos de projetos culturais por editais ou leis de incentivo, uma outra fonte de recursos se abre, não para a associação crescer economicamente, mas para, de forma indireta, podermos viabilizar projetos que, de outra forma, somente seriam possíveis com o desembolso de quantias que seriam insuportáveis para os associados. Ainda não tivemos a oportunidade de reunirmos a diretoria, mas outras formas de conseguir recursos podem e devem ser estudadas.

Integrantes da nova diretoria da Assodita, eleita em Nova Erechim-SC (Foto Cedida)

Quem é Juvenal Dal Castel? – Nasci na roça em Dois Lajeados quando ainda era distrito de Guaporé, mas hoje já município. Família de colonos descendentes de Italianos, com sete irmãos onde se falava exclusivamente o talian. Sem saber, naquela época meus pais e irmãos me transmitiram um saber linguístico que hoje é um importante patrimônio cultural brasileiro. Na escolinha primária rural, fui aprender a escrever e falar o português.

Meus pais viveram a proibição do talian e nós filhos vivemos algo mais danoso, que foi o deboche: “quei che i ne scoltea parlar in talian i ne toleva in giro, e dopo i ne toleva in giro natra volta co se proeva parlar in brasilian”, por causa do nosso sotaque talian.

Aos 11 anos, em 1974, fui estudar nos Padres missionários Scalabrinianos que cuidavam dos migrantes. Neste período aprendi a tocar violão de forma auto didática olhando os colegas que sabiam, pois a música sempre me atraiu desde pequeno. Também em 1975 76 e 77 montamos um grupo de teatro itinerante que se apresentava nas capelas do interior com o objetivo de fazer os colonos rir ouvindo a sua língua materna e caseira, o talian, ser apresentada nos palcos. Lá ainda não tínhamos intenção de salvaguardar o dialeto, mas apenas divertimento e entretenimento. Mas já foi algo que serviu para resgatar um pouco a auto estima dos nossos colonos que sentiam vergonha de se expressar no único idioma que efetivamente dominavam.

Vivemos meio século de repressão dos nossos mais verdadeiros e profundos sentimentos porque os sentimentos verdadeiramente se expressam na língua mãe, que é a língua do coração.

Do seminário, terminado o segundo grau, fui prestar o serviço militar obrigatório compartilhando o ambiente com jovens alemães e negros. Lembro dos alemães do vale do taquari que falavam entre si em baixo volume o idioma dos seus pais e percebia que o faziam com prazer e alegria. Nós da região da serra, taliani, nesse breve contato de etnias conseguimos no máximo aprender e ensinar uns aos outros alguns palavrões. Equivocadamente achávamos que a língua dos soldados negros era o português, quando na verdade os negros sofreram um cruel massacre linguístico, incomparável ao que passaram os italianos, alemães e outros.

Aos 20 anos fui pra universidade e me formei em Odontologia na UFPel, profissão que ainda exerço e na faculdade havia alguns colegas que falavam em talian e principalmente na Casa do Estudante havia vários filhos de colonos que falavam em talian e, sempre que possível, falávamos em talian, principalmente quando não queríamos que não nos entendessem.

Embora longe, o contato com a família e a comunidade nas férias era muito singular porque eu podia exercitar o talian que sempre achei uma língua de pessoas alegres, pois tem expressões que realmente são engraçadas e divertidas. Participando das atividades da capela, continuava com as cantorias e o coral da comunidade onde sempre se cantava a canção folclórica ou religiosa em talian.

Posteriormente fui iniciar minha vida profissional em uma cidade onde praticamente toda a população falava em talian, que era Flores da Cunha RS.

Meus pacientes eram basicamente colonos que vinham ao consultório porque eles preferiam expressar suas dores ou relatar seus desconfortos odontológicos em talian, sentindo-se mais à vontade e numa relação mais horizontal. Neste tempo, 1987, já havia um movimento nas rádios e no jornal local onde o talian passou a fazer parte da expressão cultural da cidade.

De lá, em 1992, eu fui trabalhar em Porto Alegre onde de certa forma me afastei um pouco da cultura da minha gente pela dificuldade de encontrar falantes, não porque não existissem, mas pela complexidade natural do grande centro urbano.

Os programas de rádio que eu escutava ao viajar para a Serra me chamavam muito a atenção e em 2008 pensei em gravar algumas canções em talian pois eu já vinha compondo em português. Quando apresentei minhas músicas num programa de rádio em Guaporé ao Radialista Edgar Maròstica ele me estimulou muito a continuar a produzir e ele passou a divulgar meu trabalho no meio dos outros radialistas, e assim que soube do encontro dos Radialistas de 2009, em Serafina Correa, logo me interessei em participar e foi onde conheci grandes nomes da salvaguarda do Talian e aos poucos fui me inteirando da história do Talian que já tinha desbravado um bom caminho.

Alguns estavam cansados da lida, pelo que os novos trabalhadores que se apresentavam eram sempre bem acolhidos, como ainda hoje ocorre, pois a perpetuidade do talian depende muito dessa energia em constante renovação.

Além das 16 canções em talian que publiquei em CD, em site particular e hoje já nas plataformas digitais, passei a fazer poesias que disponibilizei aos radialistas e público, uma Radio Novela de ficção em 2013 que acabou virando um livro impresso em 2019 com recursos do prêmio de Mestre da Cultura Popular que me foi concedido pelo Ministério da Cultura.

Em 2018 participei da criação do Colegiado Setorial da Diversidade Linguística do Rio Grande do Sul, onde ainda estou como membro. Também faço parte do “Comitato Nacional do Talian” e, mais recentemente então, inexplicavelmente, pela minha modesta atuação, não tive como fugir da necessidade de continuar a obra de salvaguarda do talian até aqui tão bem conduzida pelos que me antecederam e juntamente com outros colegas muito atuantes. Quiseram os associados da Assodita que eu coordenasse para os próximos dois anos essa tarefa de grande responsabilidade e de enorme importância para a cultura brasileira. Estou presidente da Assodita.