Morre Salvador Scalia, baluarte na defesa dos italo-brasileiros. “As filas são ilegais”, dizia

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Salvador Scalia em 12 de outubro de 2017, em São Paulo. (Fotos Desiderio Peron / Arquivo Revista Insieme)

Depois de cerca de uma semana hospitalizado, faleceu na noite que passou o engenheiro Salvador Scalia, ex-presidente do Comites – ‘Comitato degli Italiani all’Estero’ do Recife e um dos grandes batalhadores pelos direitos dos ítalo-descendentes no Brasil. Scalia faleceu de câncer no pulmão e complicações no fígado, e deixa a esposa Stefana Fragapane e três filhos (Pietro e Roberto e Eduardo), além de netos. Seu sepultamento será hoje, às 15 horas, no cemitério Morada da Paz, em Recife.

Nascido em 26/01/1952 em Recife, filho de Pietro Scalia e Orsola Maltese, naturais de Cattolica Eraclea, Agrigento (Sicília), no seio da comunidade ítalo-brasileira o engenheiro Salvador Scalia ficou conhecido em todo o Brasil por suas posições contra as chamadas  filas da cidadania, repetindo o bordão “as filas são ilegais”. Eleito em 2004 e sucedido no Comites do Recife por Daniel Taddone, Scalia despediu-se, em 2014, da representação dos italianos com a célebre frase retirada da Divina Comedia, de Dante Alighieri: “Lasciate ogni speranza, voi che entrate”. Ele foi eleito pela primeira fez em 2004.

Sua última luta antes de adoecer repentinamente, foi na articulação de manifestações contrárias ao chamado “Decreto Salvini” que pretendia, segundo a primeira versão do texto, limitar a transmissão da cidadania ‘iure sanguinis’ à segunda geração. Desde à época em que combatia a visão do falecido senador Edoardo Pollastri (“se Adão e Eva fossem italianos!”), Scalia defendia intransigentemente o direito dos descendentes de imigrantes italianos a terem reconhecida sua cidadania italiana, independentemente de gerações. “Filho de italiano já nasce italiano”, repetia ele.

No início de 2009, saudava, na capa da revista Insieme,  chegada da ‘task force’ da cidadania, que tinha o propósito anunciado de acabar com as filas. Mas “parece mais uma ‘lazy force’, dizia ele, ironizando os resultados. Escreveu inúmeros artigos para o site e revista Insieme.

Com o advento das redes sociais, Salvador Scalia passou a ser uma espécie de consultor das multidões. No FaceBook, dentro de grupos como o “Cidadania Italiana – Area Livre!!!”, era comum os internautas, antes de se pronunciarem, solicitarem o parecer dele. Poucos, como ele, tinham a memória das lutas travadas em reuniões, encontros e seminários onde se discutiam questões ligadas à estrutura consular italiana no Brasil.

Embora com plenas condições de concorrer, Scalia sempre se negou a participar, como candidato, das eleições parlamentares italianas. De apoiador incondicional de Fabio Porta, passou para a oposição em consequência da falta de resultados na solução dos problemas das filas. Teve atuação firme na organização dos protestos ocorridos em 12 de outubro do ano passado diante do Consulado Geral da Itália em São Paulo.

“Não podemos e não devemos ficar calados diante de tantos absurdos. Esperar 10, 12 anos para registrar a cidadania, ou um ano para obter um passaporte, o sistema lotérico do prenota online e muito mais, tudo isso é ilegal segundo as leis e normas italianas” dizia ele, contrário à cobrança da taxa de 300 euros para ver reconhecido o direito à cidadania italiana. “Chega de pessoas que não nos representam no sistema de representação dos italianos no exterior”, criticava.

Num vídeo gravado logo após as manifestações de outubro em SP, Scalia se dizia realizado, depois de atuar cerca de 10 anos no chamado “sistema de representação” dos italianos no exterior e  cair fora, desiludido: “As reuniões eram inúteis e secretas”, repetia ele, para observar que “as ilegalidades cometidas pela rede consular italiana aqui no Brasil são muitas e a gente precisa enfrentar essa situação”.

Salvador Scalia, sua esposa Stefana Fregapane, e seus filhos Pietro, Roberto e Eduardo. (foto do Perfil no FaceBook)