O cônsul-artista

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Você conhece as qualidades artísticas de Raffaele Festa? Eu, não. Mas tenho curiosidade de conhecer. Como cônsul, todos já sabemos como é. Vai que seja – quanto parece – virtuoso, e poderíamos admirá-lo também sob outro ângulo, não é? Pois bem, a oportunidade passou. Ele ia dar um concerto (é esse o termo?) hoje à noite, no encerramento da programação relativa à “Settimana della Lingua Italiana” em sua jurisdição.

Na verdade, o programa oficial que está no site do próprio consulado, fala de “recital”. Isso mesmo, recital de música de câmara, com “romanças italianas de Tosti”. Festa ao piano, e Vincenzo Cortese, tenor. No Salão Guido Borgomanero do Centro Cultural Ítalo-Brasileiro Dante Alighieri. Depois do concerto, coquetel oferecido pelo próprio pianista, aliás, cônsul-artista.

Assim que vi o programa, senti-me na obrigação de colocar o tema na pauta. Afinal, não me consta que algum cônsul que por aqui passou tenha dado espetáculos públicos. Arrumei meus equipamentos, duas câmeras, baterias, microfones e transmissores e lá fui, com espaço de tempo suficiente – graças ao leve trânsito de sábado – para folgadamente instalar a geringonça e garantir um bom resultado para o público que nos segue na Insieme digital e seus derivados. A Amélia, como sempre, me ajudando.

Não posso omitir que minha intuição já ao sair de casa segredava algo. Isso, em função do que tem ocorrido nesses pouco mais de dois anos que o cônsul aqui está. Certo, ele pegou a mania de censurar Insieme, mas, pensei comigo, trata-se de um espetáculo musical, onde a autoridade cedeu vez ao artista. E todo artista gosta de mostrar sua arte. Tanto Festa quanto meu antigo amigo Vincenzo Cortese, mais conhecido pela maioria como “sommelier”, mas cuja voz eu já conheço e tive oportunidade de gravar alhures.

Enquanto eu montava tele-objetiva e receptor sobre um tripé, no fundo do salão (depois iria montar microfone, transmissor e outra câmara na linha de frente, onde eu pretendia cumprimentar os artistas e desejar-lhes bom espetáculo), a Amelia percebeu alguma movimentação lá no palco, onde estavam Festa, Cortese e sua esposa Rita (secretária do cônsul). Passou a me explicar o que lá se passava: uma rápida rodada de conversas entre os três que, com frequência olhavam em nossa direção e “agora ele chamou o Marlus (funcionário do consulado ex-presidente ainda vinculado à direção da casa); agora o Marlus está vindo pra cá!”

Ordens: se quiser fazer alguma foto, pode. Mas registrar, vídeo, não! É a determinação do cônsul.

Pensa até dez… Fica, não fica… Aceita a imposição? Um jornalista castrado em metade de suas funções em evento público… o público de Insieme privado de conhecer os dotes artísticos do cônsul, mais que isso, privado do que seria o ápice da programação da “Settimana della Lingua Italiana” – um evento mundial engendrado pelo governo italiano através de três, quatro ministérios, todos os consulados, institutos de cultura italiana, associações… a própria Dante Alighieri, enfim… que fazer?

Desmontando já o tripé e dizendo ao Marlus que aquele cônsul pelo menos tentasse superar a sua pusilanimidade e viesse impor pessoalmente ao jornalista sua mania de dizer o que a imprensa deve ou não deve fazer, bati em retirada, desejando em bom tom um “bom espetáculo a todos”.

Ah, pedi ao Marlus que, como trouxe, levasse o recado: Castrar jornalistas não é função consular.

A quente ainda, disparei algumas mensagens para alguns de nossos representantes (pois chega de ficar silenciando diante da censura), a começar pelo senador Ricardo Merlo, mais o presidente do Comites, Walter Petruzziello e outros nos seguintes termos: “Acabo de ser “tocado” do auditório da Dante Alighieri de Curitiba pelo cônsul Festa, hoje travestido de pianista: ele acompanharia ao piano o tenor Vincenzo Cortese no espetáculo de encerramento da “Settimana della Lingua Italiana nel Mondo” na jurisdição consular de Curitiba. Na verdade, o cônsul, que demonstra assim continuar a cultivar seu capricho de censura à Insieme, foi mais sutil: disse que o jornalista poderia fazer algumas fotos, mas não poderia registrar. Ora, o jornalismo atual exige foto, vídeo, e muito mais… Ainda mais tratando-se de espetáculo musical. Recusei-me a ficar pela metade e bati em retirada, desejando-lhes bom espetáculo. O cônsul-artista não teve coragem, entretanto, de falar pessoalmente comigo. Mandou um funcionário do consulado – o Marlus – que é, também, vinculado à direção da Dante Alighieri”.

Para quem não sabe, a censura à Insieme (e também ao Comites de Curitiba) por parte de Festa, começou com alguns vídeos super-elogiados nas redes sociais, que narravam os debates numa assembléia do Intercomites, realizada há cerca de dois anos, na sede da Sociedade Giuseppe Garibaldi, em Curitiba. Relaciono aqui alguns deles.

Ah, e gostaria de acrescentar que em meus mais de 50 anos de exercício profissional continuado, e como editor da Revista bilingue Insieme há mais de 25 anos (tenho um orgulho danado de dizer que a publicação é escrita em português e italiano, graças à valiosa colaboração do italiano Claudio Piacentini – o que a insere perfeitamente nesses eventos que cantam e decantam a língua de Dante) nunca tinha enfrentado uma obtusidade tamanha de uma autoridade consular contra a qual nada tenho pessoalmente. Sempre quis, e continuo querendo, exercer com liberdade minha profissão. Sem medo de errar e de corrigir, se necessário, meus eventuais erros e falhas, geralmente ditados pelas limitações que sofro, inclusive de áreas oficiais.

Neste caso – pela primeira vez assumo esse tom pessoal – acho que não havia motivo algum para censura ou restrições. O homem é público, o espetáculo era público, a convocação estava (e ainda lá está) na página oficial do consulado na Internet, etc., etc., etc.. Mesmo que tivesse mais “angu” por debaixo desses panos, a ideia era apenas divulgar o evento da “settimana” e o cônsul-artista que, como artista, prefere ser cônsul que ensaia, com certeza, madrugadas adentro sem enfrentar filas, reclamações de quem precisa passaporte e coisas do gênero.