Merlo e Porta choram a morte de Scalia que, até o último momento, queria saber das novidades. Morreu sem comemorar o ‘decreto Salvini’

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Daniel Taddone, Salvador Scalia e Ricardo Merlo: 12 de outubro de 2017, no protesto diante do Consulado Italiano de SP (Foto Desiderio Peron / Arquivo Revista Insieme)

Ricardo Merlo de um lado, Fabio Porta de outro – ambos, e quase ao mesmo instante, fizeram chegar à redação de Insieme suas manifestações de lamento pela morte do ex-presidente do Comites – ‘Comitato degli Italiani all’Estero’ do Recife, Salvador Scalia. O repentino desaparecimento de Scalia também movimenta, desde o início, da manhã os diversos grupos de que ele participava ativamente nas redes sociais, alguns deles, como o “Cidadania Italiana – Area Livre!!!” e o “Contra as Filas dos Consulados Italianos no Brasil” rendem-lhe homenagem com imagem de capa.

‘Tive nele um dos mais convictos apoiadores e também um dos mais fortes críticos”, disse Porta, pedindo a Insieme que tornasse pública sua manifestação,  enquanto Merlo observava, em comunicado à imprensa, que “levará sempre no coração a lembrança de um grande homem e de um incansável combatente pela causa dos italianos no exterior”.

Scalia morreu na noite que passou, vítima de um câncer fulminante nos pulmões e de complicações no fígado. No início da tarde de  quarta-feira ele, em mensagem gravada, falava de “uma sucessão de desgraças até chegarem a conclusão de que eu tenho nódulos no pulmão e no fígado. Tive que fazer uma operação de emergência… Então, quando eu sair daqui, vou me fortalecer para entrar numa químio”.

Em outra mensagem, já na sexta-feira final de tarde, Scalia dizia-se bem melhor e anunciava que sairia da UTI para outro apartamento e que, “provavelmente amanhã (sábado) estarei em casa…, dizia ele com voz fraca. Mandou, a seguir, seu filho Eduardo perguntar sobre as novidades, “para me atualizar”,  conforme se ouvia ele dizer ao fundo. Depois, Scalia não respondeu mais.

Scalia deixou de apoiar Porta assim que percebeu que a devolução dos recursos oriundos da taxa dos 300 euros sobre cada processo de reconhecimento da cidadania ‘iure sanguinis’, que passou a ser dobrada em meados de junho, tardava a chegar nos consulados enquanto as filas restavam do mesmo jeito. Entrou com tudo no apoio ao protesto realizado dia 12 de outubro de 2017 diante do Consulado Italiano de SP.

O ex-deputado Fabio Porta diz em sua mensagem que “Salvador Scalia nos deixou, exatamente hoje, o dia de uma vitória que também teria comemorado: a retirada das restrições à cidadania ‘ius sanguinis’ previstas na primeira versão do ‘decreto Salvini’, apresentado [e aprovado à unanimidade] pelo Conselho de Ministros”.

‘Sim – prossegue Porta – porque da batalha pela defesa da cidadania por direito de sangue  e dos direitos dos ítalo-brasileiros Salvador Scalia fez a principal razão de seu empenho no seio de nossa comunidade. Como presidente do Comites do Recife e presidente do Intercomites do Brasil ele defendeu com coerência e determinação essa luta”. Depois Porta lembra que “foram anos durante os quais, como parlamentar, mantive com Scalia um intenso relacionamento de confiança, estima e colaboração. Tive nele um dos meus mais convencidos defensores , assim como também um dos mais fortes críticos”.

“Salvador era assim – prossegue Porta -, um siciliano que  não gostava de meias medidas, e lutas travadas pela metade. Com esta franqueza entramos em acordo e também nos desentendemos. Ele era uma pessoa pragmática e queria resultados concretos e imediatos; eu indicava um caminho, que ele concordava, mas que não enxergava sucesso em breve. Teríamos continuado a lutar juntos, e estou certo que nos encontraríamos outra vez juntos a combater sobre o mesmo fronte e apoiando os mesmos objetivos, tenho certeza”.

Porta conclui dizendo que “é esta a mensagem que nos deixa: a única batalha perdida é aquela não travada. Conservei com muito carinho em meu perfil no Facebook mais de dez anos de trocas privadas de mensagens com Salvador. A ele quero dedicar as mesmas palavras com as quais me desejava feliz aniversário há dez anos: “ Fabio, parabéns. Você é de Escorpião.Signo da intensidade, da profundidade e da luta pela sobrevivência. De grande coração, vigorosas, envolvidas com a vida, indomáveis, verdadeiras, entusiastas, apaixonadas, perspicazes, de vontade firme e sincera, não desanimam com facilidade, de rápida recuperação ante as adversidades. Tudo a ver com você. Parabéns”.

MENSAGEM DO MAIE – Já o Maie – ‘Movimento Associativo Italiani all’Estero’, por seu presidente e senador Ricardo Merlo, que é subsecretário do Ministério das Relações Exteriores e Cooperação Internacional manifesta, em nota à imprensa, “o mais profundo pesar pelo desaparecimento de Salvado Scalia”. Engenheiro e ex-presidente do Comites do Recife no período 2004-2015 – diz a nota – “Scalia era o vice-coordenador para a circunscrição Nordeste do Brasil do Maie”.

A nota continua dizendo que “o senador Merlo lembrou que Scalia dedicou com paixão e dedicação a sua vida à causa dos italianos no exterior” e que “deixou especial testemunho de seu empenho pessoal na defesa, em qualquer sede, dos direitos dos emigrados e de seus descendentes”. Merlo, como presidente do Maie, enfatiza que todos os dirigentes do Maie mundial “estão unidos à dor da família de Salvador Scalia”.  “A notícia de sua morte me tocou profundamente – conclui Merlo na mensagem, assegurando que “levarei sempre no coração a lembrança de um grande homem e de um incansável combatente pela causa dos italianos no exterior”.