“Falta de interlocução”, eis o motivo principal da renúncia de Petruzziello. Em vez de diálogo, correspondências de censura. “Não é um ato de covardia”

435

Três dias após formalizar sua renúncia ao cargo de presidente do Comites – ‘Comitato degli Italiani all’Estero’ do Paraná e Santa Catarina, o advogado Walter Antônio Petruzziello confessa em entrevista exclusiva a Insieme o motivo principal da decisão: “falta de interlocução”. Sem pronunciar o nome do interlocutor faltoso, ele se referiu claramente ao cônsul geral Raffaele Festa e a algumas de suas atitudes, como a censura e outras limitações impostas à imprensa e à atividade do próprio ‘Comitato’. “Não é um ato de covardia”, enfatizou o renunciante.

“Nós sempre recebemos a autoridade consular em nossas reuniões sem problema algum” – diz Petruzziello a certa altura da vídeo-entrevista. Mas “atualmente recebemos correspondências em que era proibido o conselheiro “fazer comício”, era proibido à imprensa ou a qualquer pessoa registrar ou gravar a reunião, então isso se tornou um ponto de conflito muito grave; como não estamos conseguindo resolver esses conflitos, chegou a hora do técnico ser trocado porque o time está perdendo”.

Há também motivos familiares que Petruzziello não cita na entrevista, mas sobre os quais fez referência durante a assembleia da entidade no sábado último. Sua esposa é funcionária do governo italiano do lotada no consulado de Curitiba. Na sexta-feira à noite, em correspondência endereçada a todos os integrante Comites, renunciou também o conselheiro Carlo Endrigo Peron, que ocupava a função de secretário.

O ex-presidente do Comites contou que, desde o início, vinha mantendo as autoridades de Roma a par da situação, recebendo como resposta um “estamos monitorando”, e admitiu que o movimento de renúncia coletiva dos conselheiros em solidariedade à Presidência da entidade, inicialmente prevista para acontecer durante a realização da “XIV Reunião de Coordenação do Sistema Itália no Brasil”, em Curitiba, foi desarticulado atendendo a ponderações do senador Ricardo Merlo, subsecretário da Farnesina para os italianos no mundo. “Ficaríamos mais enfraquecidos e sem voz”, diz Petruzziello, que é também coordenador do Maie – ‘Movimento Associativo Italiani all’Estero’ no Brasil.

Durante a entrevista, Petruzziello historia algumas fases de sua longa permanência à testa do Comites e também do CGIE – ‘Consiglio Generale degli Italiani all’Estero’ e enumera alguns dos resultados obtidos. “Sou um homem de resultados”, disse ele e, tomando o futebol de empréstimo, compara a situação do técnico quando o time não vai bem: é trocado.

O advogado atribui alguns conflitos à legislação que regula as atividades dos Comites, ao não contemplar ou regular algumas das atividades fundamentais do órgão que é uma espécie de “parlamento” das comunidades italianas. “A lei [dos Comites] é uma lei velha, que não serve para nada; hoje os objetivos dos Comites não estão na lei, mas se você quer exercer, a autoridade consular vem e te derruba juridicamente citando artigos da lei”, diz o Petruzziello.

Ele explica que essa lei que regula os Comites já deveria ter sido atualizada, pois como está “não serve para nada” . Exemplifica: determina que o órgão tutele o trabalhador italiano no exterior, mas não fala que temos que tutelar o cidadão que precisa de um passaporte, de uma cidadania”. Aliás, enfatiza Petruzziello, “quando se fala em cidadania, já se invoca a lei dizendo: ele não é italiano, ele ainda vai requerer a cidadania; eu estou aqui para atender os italianos”.

“Está havendo um conflito entre o que é um Comites na prática e o que é o Comites na lei. Esse conflito existe e a maioria das representações diplomáticas consulares se aproveita desse conflito para exatamente dizer: olha isso aqui não compete a vocês, como aconteceu muitas vezes”, assegura Petruzziello, citando como exemplo “o famoso decreto de cancelamento da cidadania” da família Scavazza. “Ali usaram essa frase: não é competência do Comites”. “Evidentemente que eu sei – aduz Petruzziello – que não é competência do Comites, não está na lei, mas temos que defender aquilo que a comunidade espera de nós, mesmo não estando na lei”.

O ex-presidente do Comites PR/SC permanece, “por enquanto”, como integrante do conselho. Mas afirma que em breve poderá renunciar também à função de conselheiro. Na tarde de hoje, estava em contato com seu sucessor, o advogado Luiz Molossi (também ele da coordenação sul-americana do Maie, e a quem deseja tenha mais sorte que ele e consiga resolver o impasse criado) para a marcação de uma audiência com o cônsul Raffaele Festa, que não se encontrava na sede consular e dentro de poucos dias entrará de férias.